Viver é Mais Fácil Com os Olhos Fechados
Por Redação Arte Com Pipoca4 min de leitura
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Publicado originalmente em 16 de junho de 2014 no Arte Com Pipoca.
Tem filmes que, mesmo cheios de defeitos, conseguem nos conquistar. Seja por um personagem, seja por uma cena, etc. Este é o caso aqui. Um filme cuja proposta se perde em meio à vários problemas em seu andamento, mas que ainda assim é agradável.
Dirigido por David Tueba, o longa, Viver é Mais Fácil Com os Olhos Fechados, conta a história verídica de Antonio, um professor de inglês na Espanha franquista em 1966, que utilizava as letras das músicas dos Beatles em suas aulas. Mais do que apenas usar as músicas pra ensinar a língua, ele se apodera do conteúdo delas pra discutir a “filosofia” e o significado de cada canção. Quando fica sabendo que John Lennon iria estar em uma cidade próxima, Almeria, para atuar em um filme, decide ir até o encontro de seu ídolo, apenas para conversar com ele. No caminho, ele dá carona pra dois jovens que fugiram de casa, uma moça grávida, e um rapaz que não aguentava mais a opressão de seu pai.
Este é o típico filme onde os personagens se encontram por acaso, e acabam tendo suas vidas modificadas pelos acontecimentos, e um aprendendo com o outro sobre a vida. E recheado com os clichês do gênero. Mas apesar disso, o filme não é ruim. Antonio, o professor, é um personagem gentil e cativante. “Tagarela”, e sempre bem humorado, ele serve de contraponto aos dois jovens, deprimidos pelas dúvidas e expectativas da idade. Mesmo assim, eles protagonizam sub tramas que são interessantes, embora não sejam bem exploradas na trama. Parece que o diretor se perde entre o filme ser sobre eles, ou sobre Antonio, e sua paixão pelos Beatles.
É agradável também a forma como é mostrada a vida das pessoas comuns, e sua luta por sobrevivência. Apesar de pouca menção ao período político (que pode ser óbvio para os espanhóis, mas de pouco conhecimento pra nós), o filme se passa durante a ditadura do general Franco. Mas, mesmo que não conheçamos as agruras desse período pra eles, podemos nos identificar com a beleza da vida simples. Quem já viajou pra uma cidade desconhecida do interior, sabe como é isso.
Mas o que faz o filme se perder é não amarrar corretamente todas as histórias. Antonio se torna quase um coadjuvante durante boa parte do filme, fazendo com que, enquanto o jovem casal se torne o centro das atenções, esquecemos por completo o que ele foi fazer na cidade. Não há aquela ansiedade típica de um fã que quer desesperadamente encontrar seu ídolo. Quando os personagens chegam à Almeria, a história se movimenta muito pouco, focando em como Antonio tenta resolver os problemas de seus novos amigos. Talvez o filme ficasse mais interessante se focasse mais em Antonio e sua busca por encontrar John Lennon. Mas essa busca acaba sendo “lembrada” pelo roteiro apenas no último ato, e se mostra bem rápida (apesar de o encontro dos dois ser algo genial. Não vou contar aqui como é). Claro que isso faz com que o filme se torne um pouco arrastado.
Outra forma interessante é em como um certo clichê do gênero deste filme é “subvertido”: geralmente, Antonio seria o catalisador da mudança nas vidas dos jovens, mas, enquanto ele acaba tocando as vidas dos dois, ao final parece que ele é que foi mais tocado. Os jovens aparentam ter mudado pouco, enquanto ele, que passa o filme quase como coadjuvante, retoma o protagonismo do filme no último ato.
E, pra quem, assim como eu, é fã dos Beatles, há a história que o filme conta (mesmo aparentando ter sofrido obvias “licenças poéticas”), além de como uma simples letra de música pode nos tocar intimamente. Na cena de abertura, Antonio está com seus alunos, tentando explicar o que Lennon quis dizer com a letra de “Help”. Ao final do filme, talvez o espectador tenha vontade de gritar “help” Também.
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