
Ninfomaníaca
Por Daniel SerafimAtualizado em 10 min de leitura
Publicado originalmente em 1 de maio de 2014 no Arte Com Pipoca.
Sinopse
Numa noite de inverno, o solitário Seligman encontra Joe caída e ferida num beco e a leva para casa. Enquanto se recupera, ela conta a ele a história da própria vida, da infância à idade adulta, marcada por uma busca compulsiva pelo prazer e pelas consequências que essa busca trouxe.
“Sexo. Despudor. Transtorno. Prazer. A junção de tais ingredientes, nas mãos de um gênio, torna-se um filme impecável, composto por um berço de atuações magníficas e extremamente carnais. Aqui tudo o que se disser vai ser pouco, muito pouco mesmo, pois imagens e sons têm muito mais o que dizer. Ou não*.”*
É o caso em que criatura não existe sem o criador, em que não se fala de um sem o outro e ambos estão numa ligação tão intrínseca, que a imaginação só flui quando se pensa nos dois da mesma forma. De fato, depois de tantos filmes e de um estilo e personalidade cravados, torna-se arbitrário demais falar em Lars Von Trier, pois, ou se elucubra por horas a fio ou se silencia e muito pouco é dito. A verdade é que o diretor é dessas situações únicas de genialidade que, esteja ele no maior estágio do “nirvana” ou esteja no nível mais baixo da miséria, a obra que irá gerar será sempre monumental. Como poucas pessoas Von Trier consegue orientar a arte no modo mais genuíno em que ela foi composta, ele dá a ela um sentido tão vivo que representa um estudo singular. Somente que não para por aí, ele consegue ir além da imaginação, seu dom é tão dócil à arte que cada fragmento do que compõe tem a potência de gerar uma experiência real dentro de quem o assiste; e são sentimentos puramente verdadeiros, ou seja, quem o assiste vai de fato, por exemplo, conhecer o que poderia sentir se algo lhe chocasse, isso quando Lars Von Trier tem a intenção de chocar ao espectador, mas a sensação deste choque vai ser tão verdadeira, que a gente se esquece ser como um ventríloquo nas mãos do diretor. É o tipo projeção que seria possível apenas (e repare bem nesta palavra, “apenas”) através de cérebros geniais e visionários, desses que estão à frente do seu tempo.
“Rasgação de seda” à parte, se o objeto do desejo não tinha ficado claro antes, em ” NINFOMANÍACA” tudo está muito explícito e fora do subjetivo. Aliás, é o grande mote do filme, ser todo composto fora do subjetivo. Geralmente, principalmente em se tratando de Cinema, temos a tendência a uma supervalorização daquilo que fica no subjetivo, no onírico, no empírico, de tudo o que fica pelo não dito. De fato, a maioria dessas obras, é única. Mas o que acontece aqui é totalmente o oposto. Lógico, Lars segue com veemência processos psicanalíticos e inconscientes, com maestria; segue padrões de libido, luxúria, sadismos, paranoias, obsessões e transtornos, de dar inveja a qualquer doutor no assunto. Tudo às claras e sem rodeios. Quando visto num todo, o filme surge como uma grande brincadeira, mais uma das formas que Lars encontrou para envergonhar o puritanismo e o moralismo falido de uma sociedade, ainda mais falida. Fez isso, logicamente, da maneira mais inteligente possível. Desde sempre não foi segredo pra ninguém que o filme seria sobre uma personagem, encontrada sob maus tratos num beco por um homem mais velho, que a leva para casa e que ouve dela toda a sua história de vida. Pois, em sua história de vida, o sexo literalmente foi mais forte e tornou-se a “pedra no seu sapato”. Ou não. Em determinado momento a personagem resolve, de uma vez por todas, consentir que o que sente e o que faz, pode ganhar pra si mesmo uma conotação de prazer ou que vá além disso. Ela se dá ao direito (aquele direito ao qual somos ensinados a sempre repreender e descarregar de outras formas) e vive consequências das mais assombrosas.
Desta forma, ” NINFOMANÍACA ” se faz, na verdade, de sequências volumosas e impecáveis. Extraordinárias. Vale muito mais a pena discorrer sobre algumas delas. A Joe, personagem central, interpretada em medida, mais uma vez pela atriz símbolo do diretor, Charlotte Gainsbourg, é de uma construção meramente sarcástica; sempre vestida como se fosse uma secretária ou uma estudante de colégio, consegue traduzir a “falsa santa” que se esconde por baixo de roupas tão singelas e que quando se solta é um vulcão. A atriz ganha ainda mais brilhantismo ao desvencilhar-se da nudez, sua interpretação é tão completa que, como dizem os professores de atuação, em cena não existe mais o que poderia te prender, pois a arte lhe possui por completo. Igualmente, a interpretação da atriz que a compõe na juventude, a britânica Stacy Martin, expressa a fase da personagem com um olhar tão sádico, ao mesmo tempo se passando pela “perversa ingênua”, numa atmosfera de cinismo, que dá gosto. Numa sequência espetacular, a jovem com uma amiga estão dentro de um trem, disputando pra ver quem transa com mais homens em troca de um saquinho de doces. Até que resta ainda um homem aparentemente inquebrantável e é a jovem Joe a incumbida da missão de seduzi-lo. Dotada de uma sedução quase infantil a personagem constitui uma aproximação do homem que, além de deixá-lo sem reação, lhe faz atravessar o senso do proibido. Estabelece-se assim a nitidez da personalidade persuasiva de Joe, que atrairá ainda centenas de homens. É soberbo. Porém, em meio a tanto sexo explícito, já que nada sacia a personagem, surge um momento ápice. A certa altura, transando com todos estes homens, a Joe de Lars Von Trier é encurralada numa cena; ela está prestes a receber um jovem, além disso encara um homem à sua porta morto de amores por ela, carregado de malas, pois veio se mudar pra sua casa e de repente é surpreendida pela chegada da esposa do indivíduo. E eis que surge, junto com 3 filhos pequenos, a esposa interpretada por uma Uma Thurman como há muito tempo não se via. A mulher vai entrando no apartamento e absorta de um ódio tão grande pela traição do marido, faz algo inédito. Leva os filhos, cômodo a cômodo da casa de Joe, mostrando a eles onde o pai dormirá com a ”…”; é na cama de Joe que ela solta a maior pérola: “prestem bem atenção nisso aqui porque anos mais tarde vocês vão usar disso na terapia”. A sequência é monumental.
É disso que se faz uma obra como essa, de sequências instigantes. Durante o conto de sua vida ao velho Seligman, também bravamente interpretado por Stellan Skarsgård, falta uma única coisa ao roteiro do filme: vencer um prêmio. Feito de diálogos que mais parecem uma engenharia, são deslumbrantes as associações feitas do comportamento sexual descomunal de Joe com Edgar Allan Poe, Bach e números de Fibonacci. Soa mesmo como música aos ouvidos os impulsos monstruosos de Joe ao sexo associados a arranjos e harmonias musicais. Porém, o filme, foi infelizmente dividido em duas partes e é justamente a segunda delas que conta com a evolução mais significante da história. Aliás, diga-se de passagem, é um primor como a história evolui, constituída de uma originalidade ímpar. Joe, já adulta, descobre seu primeiro e único amor em Jerôme, interpretado avassaladoramente por Shia LaBeouf, uma das revelações no filme. É justamente quando Joe, insatisfeita, procura o sadomasoquismo. A relação de Joe com o sadomasoquista, interpretado por Jamie Bell (o ator do inesquecível ” BILLY ELLIOT”) numa participação especial eletrizante, beira a perfeição de tão bem construída e emblemática, reforçando a beleza da interpretação da atriz. Não existem limites para Joe. Ela confidencia a Seligman um de seus piores momentos, quando deixa o filho ainda pequeno e o marido, por conta do sadomasoquismo. E Lars Von Trier é certeiro, numa das sequências Joe deixou o filhinho sozinho no berço para se satisfazer, mas na verdade a criança está só em casa; é quando sai do berço e vai até a varanda ao som de “Lascia Ch’io Pianga” de Handel, a mesma ópera do prólogo de outro filme do diretor, ” ANTICRISTO ”. É a reencenação da mesma cena inclusive, revelando mais uma vez o primor de Von Trier em uma referência ao filme que iniciou a fase dita “depressiva” do diretor. De fato, ” NINFOMANÍACA ” chega a fazer um diálogo bem discreto com ” ANTICRISTO ”. E vai além. A trama culmina mesmo quando a personagem enfim descobre uma maneira até de lucrar com o sexo e não é virando prostituta; Joe é contratada por um cara bem mafioso para cobrar os valores que outros devem a ele e para isso ela deve torturá-los. E não é que ela encontra, em toda sua experiência como ninfomaníaca, uma maneira de usar tudo o que experienciou para compor as torturas? Numa sequência soberba, ao torturar um indivíduo, após jogar um bando de coisas na cara dele sem reação, milagrosamente cai uma ficha e ela resolve tentar algo. Começa a relatar um conto erótico do cara com um garoto. Dito e feito. O pedófilo se autoincrimina ao render-se a uma ereção feita em close pela câmera e o plano de Joe é completado. Soberbo.
Mas como já dito por muita gente, o sexo em Von Trier não excita, ele fere. A jornada de Joe também evolui em sérias responsabilidades, afinal transtornos nunca têm dois lados. A personagem é incumbida de se aproximar de uma jovem e formá-la pra o emprego. Acabam vivendo uma paixão lésbica com um desfecho perturbador, onde Jerôme agora adulto surgirá, numa dessas coincidências da vida. E assim se compõe brilhantemente o “NINFOMANÍACA” de Lars, atravessando por toda sua genialidade, rebaixando toda a moral que a sociedade diz ter abaixo de “fiofó” de animal e reforçando o estilo fílmico do gênio. Lógico, cabe também dizer que não é um filme para todos os gostos, pois como também o diretor é incompreendido, pode não ser tão simples enxergar tanto humor ou sarcasmo, em meio a closes genitais, masculinos e femininos, que podem querer não dizer nada a muita gente. O que também poderia ter sido a intenção de Lars, já que ele não deu nenhuma entrevista sobre o filme e nem concorreu a nenhum prêmio. Infelizmente, pois de fato, aqui está talvez o filme mais ignorado do ano da última temporada de premiações; o que é uma pena, pois seria difícil a obra não ser vencedora. Também pudera, parte do desprezo ao filme, vem por conta das sérias polêmicas que o diretor sempre evoca quando surge a público, o que é uma judiação. Ser autêntico também implica em preços assim pra se pagar. São os devaneios de um homem que escreve um roteiro como homem, mas que na hora de filmar entrega-o a mulheres e deixa que elas componham. “NINFOMANÍACA” não tem bandeira nem feminina nem masculina, não tem moralidade, o que reafirma-se ainda numa sequência estrondosa, onde Joe após insistir na frequência a um grupo de autoajuda, num momento em que teria se reconhecido dependente do sexo como um vício, “chuta o balde”. Ela não entende por que tem de reprimir-se, sente naquele grupo de mulheres as cobranças impostas a elas por ser mulher e num momento de fúria se levanta apontando o dedo e dizendo verdades. E vai embora muito mais satisfeita. Justamente é a identidade do filme, a liberdade, e mesmo construído em cima do inferno de um transtorno, parece questionar se o que fazemos de fato nos define enquanto pessoas. Se vivêssemos livres e independentes de qualquer amarra, certamente seríamos muito mais bem resolvidos em todo o âmbito de nossa vida. Ou não. Pois o final do filme tendenciosamente parece ceder que, como dizem, a essência não muda jamais.
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Ficha técnica

- Título original
- Nymphomaniac
- Ano
- 2013
- Direção
- Lars von Trier
- Roteiro
- Lars von Trier
- Elenco
- Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Uma Thurman, Sophie Kennedy Clark
- Gênero
- Drama
- Duração
- 4h
- País
- França, Dinamarca, Alemanha, Bélgica, Reino Unido
Onde assistir
Curiosidades
- O projeto foi concebido como um único filme de cerca de cinco horas e meia e acabou dividido em dois volumes; a versão sem cortes do Volume 1 estreou no Festival de Berlim em fevereiro de 2014.
- Nas cenas de sexo explícito, os atores simulavam as situações e dublês de corpo gravavam as mesmas posições no mesmo cenário; as imagens foram depois sobrepostas digitalmente.
- Lars von Trier considera o filme o fecho da sua "trilogia da depressão", depois de "Anticristo" e "Melancolia", todos com Charlotte Gainsbourg.
- No tapete vermelho de Berlim, o diretor usou uma camiseta com a frase "persona non grata", referência ao seu banimento do Festival de Cannes.
Fontes: Wikipédia, AdoroCinema, Manual do Homem Moderno
