
Monsieur Verdoux
Por Lexy SoaresAtualizado em 5 min de leitura
Publicado originalmente em 21 de maio de 2014 no Arte Com Pipoca.
Sinopse
Demitido depois de trinta anos como funcionário de banco, Henri Verdoux encontra um jeito macabro de sustentar a esposa e o filho: seduz viúvas ricas, casa-se com elas, mata-as e fica com suas fortunas. Chaplin abandona o vagabundo Carlitos para viver um assassino elegante, numa sátira sombria sobre crime, guerra e dinheiro.
Quem só conhece Charlie Chaplin das comédias mudas com seu personagem “Carlitos”, o vagabundo, pode se assustar bastante ao ver este filme, onde o diretor/ator faz o papel de um assassino serial de mulheres dos mais frios já vistos no cinema. Imagine um cruzamento de Dexter Morgan com Hannibal Lecter! E não estou brincando.
Em um filme que começou como um convite de Orson Welles para dirigir Chaplin, mas este não quis ser dirigido por outro, então, comprou a ideia de Welles, e realizou o filme do seu jeito. O que pode ser um choque para aqueles que só o conhecem como o bondoso vagabundo, se torna a escolha ideal para quem conhece a fundo a carreira desse mestre do cinema. Afinal, poucos atores poderiam dar vida ao mau caráter personagem, e o fazê-lo de uma forma tão natural que confere a ele quase uma aura de nobreza, e boa índole.
Inspirado em um assassino real, Henri Verdoux é um bancário que, devido à grande depressão, acabou se tornando um criminoso. Escondendo da mulher e do filho o que faz, diz que sua profissão o obriga a viajar muito. Mas em cada uma dessas viagens, ele se encontra com alguma mulher rica, a qual faz de tudo para roubar a fortuna, e, se preciso, matá-las pra ficar com todo o montante.
Cada ato do filme parece ser dividido em uma das “esposas” de Verdoux, que nem sempre usa o nome verdadeiro. Logo no começo, vemos nosso anti-herói matando uma de suas esposas, ao mesmo tempo em que a família de outra, que havia desaparecido, procura a polícia para investigar o caso. Essas duas ações montadas paralelamente servem pra nos deixar claro que ele sempre mata as esposas, e, com isso, o filme conta o destino de duas delas de forma enxuta, dinâmica e move o filme.
Enquanto vende a propriedade da “desaparecida”, ele já fica de olho em uma próxima vítima, uma viúva compradora do imóvel. Jogando seu charme sobre ela da forma mais explícita possível. O personagem é perfeito em sua mescla de bondade e frieza assassina. Nem dá pra perceber o quanto da personalidade dele é fingimento. E, pra acentuar o clima de crueldade dele, e do suspense do filme, as cenas de assassinato não são mostradas, mas ficam implicitamente claras que estão acontecendo. De uma chaminé no início do filme, sabemos por que é o corpo da mulher sendo queimado; ou de vê-lo seguir outra “esposa” até seu quarto, e sair de lá no dia seguinte com o dinheiro dela em mãos, nossa imaginação faz todo o resto.
Claro que o humor não está de todo ausente do filme. Além de cenas de um claro humor negro, há algumas cenas com gags habituais do diretor, como na cena que abre o filme, com a atrapalhada família da “desaparecida”, ou mesmo quando os planos dele dão errado. Há ainda Annabella Bonheur, outra esposa de Verdoux, em uma ótima atuação de Martha Raye, ingenuamente atrapalhada, se mostra perfeita para comédias. Sua personagem faz trapalhadas com aquela inocência digna dos melhores comediantes (ela é quase uma versão feminina do próprio Chaplin).
Lançado em 1947, MONSIEUR VERDOUX foi o primeiro filme de Chaplin após O GRANDE DITADOR, de 1940. De certo modo, o filme segue a mesma linha de seriedade deste. Até mesmo no final, um pouco panfletário, e com muitos diálogos explicando as discussões a que o filme se propõe. Nas mãos de um diretor menos competente, tornaria o filme fraco, mas Chaplin consegue inserir os discursos dentro da linha de pensamento do personagem.
E nesse discurso, pode-se enxergar uma analogia crítica ao capitalismo. Seja pelo lado óbvio, que é o fato de ele ter se enveredado pelo crime após perder o emprego, seja pela forma como ele fala no final, fazendo o crime ser uma filosofia social, parte da vida, assim como as convenções familiares, trabalhistas, comerciais, etc. Como ele mesmo diz, foram apenas negócios.
Mas apesar da comparação com o filme anterior, acredito que a semelhança seja mais nos momentos finais, já que em todo o seu andamento, eles não são muito parecidos. Guardadas as devidas proporções, este filme se assemelha mais a um drama de Alfred Hitchcock. Mas sem muito suspense. Até mesmo o fato de o filme ter muitos diálogos. Diferente do Hitch, os diálogos de Chaplin deixam as cenas muito teatrais, na forma em que são montadas. Ainda bem que o diretor é um mestre a ponto de fazer com que saibamos os pensamentos de Verdoux em vários momentos, mesmo que suas palavras digam outra coisa.
Aliás, sem entregar detalhes da história do filme, é preciso dizer que há um grande momento de virada nas ações dele. Apesar de parecer óbvia, essa mudança, e os motivos que o levam a tal são feitos sem modificar a trajetória interna dele. Verdoux termina o filme da mesma forma canalha que começa, mesmo que aparentemente esteja se redimindo. Ou talvez, ele não esteja. Talvez apenas esteja tentando nos fazer ver o mundo da forma como ele próprio vê.
Compartilhe:
Ficha técnica

- Título original
- Monsieur Verdoux
- Ano
- 1947
- Direção
- Charlie Chaplin
- Roteiro
- Charlie Chaplin, Orson Welles
- Elenco
- Martha Raye, William Frawley, Marilyn Nash, Charlie Chaplin, Isobel Elsom, Edna Purviance
- Gênero
- Comédia dramática, Comédia cinematográfica
- Duração
- 2h 4min
- País
- Estados Unidos
Prêmios
- Indicação ao Oscar de Melhor Roteiro (1948)
Onde assistir
Curiosidades
- A ideia partiu de Orson Welles, que queria dirigir Chaplin num filme sobre o assassino francês Henri Landru; Chaplin, avesso a ser dirigido por outra pessoa, ficou com a ideia em troca de 5 mil dólares e do crédito "a partir de uma ideia de Orson Welles". Os dois nunca concordaram sobre o que aconteceu depois: Welles afirmava ter escrito um roteiro que Chaplin reescreveu.
- Landru, o "Barba Azul" que inspirou o personagem, foi condenado em novembro de 1921 e guilhotinado em fevereiro de 1922.
- Chaplin acumulou as funções de produtor, diretor, roteirista, protagonista e compositor da trilha.
- O filme fracassou nos Estados Unidos, em grande parte por causa dos boicotes e da má publicidade ligados à perseguição anticomunista contra Chaplin.
Fontes: AdoroCinema, Site oficial de Charlie Chaplin, Cinemascope, Groucho Reviews
