Arte Com Pipoca

O Congresso Futurista

Por Lexy Soares4 min de leitura

Quadrinhista, cineasta independente e cineclubista. Produz tiras e quadrinhos desde 2001 e presidiu o Cineclube Pilar, em Mauá (SP), onde dirigiu curtas, organizou mostras e ministrou oficinas. Colaborou com o Arte Com Pipoca entre 2014 e 2016.

Publicado originalmente em 5 de maio de 2014 no Arte Com Pipoca.

Assistir a O Congresso Futurista, o mais recente longa do diretor Ari Folman (Valsa com Bashir) é uma experiência cinematográfica bastante interessante. Ele pode assustar o espectador comum que não estiver preparado para a sua proposta, visto que se trata de uma mistura de adaptação literária (o livro “O Incrível Congresso de Futurologia – Das Memórias de Jion Tichy”, de Stanislaw Lem) com pitadas de “falsa biografia” da atriz principal, Robin Wright. Além do fato de misturar live action com animação. Mas, deixando-se levar pela história e pelas “pirações” do diretor, o filme se torna instigante.

Em seu primeiro ato, o filme é quase uma crítica à própria indústria do cinema. Disfarçadamente criticando o futuro próximo, e como o uso das novas tecnologias pode acabar com o cinema como o conhecemos hoje. Robin Wright a interpreta mesma, em um cenário de atriz decadente, marcada por uma personagem de um filme feito anos atrás, seu único sucesso comercial, e tendo que criar filhos adolescentes, sendo um deles com problemas de audição e visão. Como forma de resolver seus problemas financeiros, um estúdio tenta negociar com ela a venda de sua imagem. A ideia é que ela seja completamente escaneada, para que sua imagem seja utilizada em filmes da forma que o estúdio desejar. Ela receberia uma grande soma, e seu nome nos créditos do filme, mas não decidiria mais que filmes escolher, e sua “atuação” neles seria apenas uma criação digital. Relutante a princípio, ela acaba aceitando, na esperança de poder pagar pelo tratamento do filho, e manter a família.

Nesta primeira parte do filme, é curioso como o espectador é facilmente “fisgado” pela história da atriz, apesar de não ser realmente a biografia dela, há muitos elementos que são construídos de forma a parecer real, como a citação a filmes em que ela realmente atuou, por exemplo. Com diálogos bem construídos, e uma interpretação profunda, em meio a cenas reflexivas e densas, a história já mostra que o fator humano, a esperança são os motes da história.

Aliados à tudo isso, a cenografia que, apesar do filme não ter uma época facilmente identificada, deixa claro que se passa nos dias atuais, mas com um visual de “futuro apocalíptico próximo”. A escolha da locação que serve de moradia da família Wright é perfeita pra aumentar esse clima.

Na segunda parte do filme, um salto cronológico de 20 anos, onde aparentemente não há mais atores “normais”, apenas digitais, e a tecnologia permite que as pessoas possam visitar a “zona restrita de animação” em que, após tomar uma pílula, se transformam em desenho animado, e vivem na forma que quiserem, até mesmo na pele de pessoas famosas (a aparição de várias personalidades é genial!).

Quando ela chega esse local, e o filme passa a ser uma animação. Aliás, a qualidade da animação é de encher os olhos. Mesmo utilizando os recursos de produção modernos, o traço e a forma como cenários e personagens interagem lembram uma mistura de animação japonesa com animações dos anos 30. E, desse momento em diante, o filme assume um tom lisérgico digno do filme “Submarino Amarelo”, dos Beatles.

Robin Wright está no Congresso Futurista para participar de uma homenagem à sua versão digital, que agora é uma estrela de filmes de ação blockbuster. Ela passa pelos vários locais dessa “cidade”, e passa a viver em conflito entre ficar nesse mundo de ilusão para sempre, ou encarar a realidade. Com quase nenhum diálogo proferido pela protagonista, o file consegue manter a mesma imersão do espectador na história, que, ao contrário do que se imagina, não muda completamente de estilo, apesar da óbvia diferença da primeira parte. É como se as mudanças no filme fossem uma forma de destacar ainda mais os dramas e conflitos que ela enfrentava desde o começo do filme.

Para os espectadores não acostumados á filmes diferentes, o ritmo lento pode desagradar, mas para apreciadores de um bom cinema, assistir à O CONGRESSO FUTURISTA é um programa e tanto!

Arte Com Pipoca
Lexy Soares

Quadrinhista, cineasta independente e cineclubista. Produz tiras e quadrinhos desde 2001 e presidiu o Cineclube Pilar, em Mauá (SP), onde dirigiu curtas, organizou mostras e ministrou oficinas. Colaborou com o Arte Com Pipoca entre 2014 e 2016.

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