Arte Com Pipoca
Figura mascarada de terno ergue uma motosserra atrás de uma caçamba, ao pôr do sol, com árvores ao fundo
Divulgação

O Massacre da Serra Elétrica (1974)

Por Ivanildo PereiraAtualizado em 9 min de leitura

Publicado originalmente em 17 de junho de 2014 no Arte Com Pipoca.

Sinopse

Cinco jovens atravessam o interior do Texas numa van para visitar o antigo túmulo do avô de dois deles. Uma parada numa casa isolada coloca o grupo diante de uma família de canibais e de Leatherface, o assassino que esconde o rosto atrás de uma máscara de pele humana e empunha uma motosserra.

Cinema

Publicado em junho 17th, 2014 | por Ivanildo Pereira

1

Filmes do outro mundo: O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chain Saw Massacre, 1974)

Cotação: ★★★★★ Excelente

O CHURRASCO AINDA ESTÁ QUENTE

Alguns filmes parecem capturar uma estranha energia em celuloide, e “O Massacre da Serra Elétrica” é um dos que se encaixa nessa definição. Realizado em meio ao mal-estar da Guerra do Vietnã e numa época em que o cinema americano buscava romper tabus, o filme de Tobe Hooper chega ao seu 40º aniversário ainda capaz de perturbar o espectador, justamente por explorar esses tabus de forma criativa e visceral.

Hoje em dia as origens do “Massacre” são conhecidas. Hooper e seu co-roteirista Kim Henkel eram cineastas residentes no Texas e rodaram juntos “Eggshells” (1969), o primeiro longa da carreira de Hooper como diretor. Ambos haviam ouvido falar, na década de 1950, de Ed Gein, o fazendeiro maluco que violava sepulturas para roubar pedaços de corpos e usava-os para fazer estranhos objetos de decoração. Gein também matou duas mulheres e serviu como inspiração para o personagem Norman Bates no clássico “Psicose” (Psycho, 1960) de Alfred Hitchcock. Quando foram criar seu filme de terror, Hooper e Henkel foram também influenciados pelos noticiários sobre o Vietnã, pela brutalidade da guerra e pelo clima de insegurança geral na sociedade americana – basta lembrar que no mesmo ano em que o “Massacre” foi lançado, Richard Nixon renunciou à presidência americana devido ao escândalo de Watergate.

Se o governo espionava o partido rival e mentia para o povo, o filme de Hooper e Henkel iria tentar convencer os espectadores de que tudo nele era verdadeiro. Por isso, “Massacre” começa com uma assustadora narração, estabelecendo para o espectador que o filme era baseado em fatos reais – e não era, apenas algumas características do assassino e da sua louca família apresentavam semelhanças com o caso Ed Gein. No entanto o público acreditou, e até hoje muitos ainda acreditam, que a história do “Massacre” realmente aconteceu. E essa é a maior qualidade do filme: ele realmente puxa o espectador para dentro daquela narrativa quase-documental e não o larga até o final.

Após a narração, fica clara outra grande qualidade do “Massacre”: ainda hoje, é um dos filmes de horror que melhor utilizou o som como ferramenta narrativa em toda a história do gênero. Por algum tempo a tela permanece escura e não vemos nada, apenas ouvimos estranhas batidas… Então um flash ilumina a tela, ouvimos aquele som inconfundível da máquina fotográfica Polaroid e percebemos o que está acontecendo: na escuridão da noite, alguém está violando uma sepultura e tirando fotos do cadáver. Depois, já de dia, vemos esse cadáver transformado numa estranha escultura, e então tem início a “viagem ao inferno” a que Hooper e seu elenco conduzirão o público.

Sob o calor texano vemos um grupo de jovens – que se tornaria um clichê dentro do gênero – a caminho do cemitério. Sally (Marilyn Burns) ouviu sobre a violação do cemitério e foi até lá para ver se a sepultura do seu avô não foi mexida. Depois, os cinco jovens partem para visitar a velha casa da família de Sally e seu irmão Franklin (Paul A. Partain), não sem antes pegarem um estranho carona (Edwin Neal). Após esse susto, chegam à velha casa, de visual semelhante a uma “mansão assombrada”, sem saberem que, pertinho dela, fica uma propriedade com muitos carros escondidos na parte de trás, guardada por sujeito grandão com problemas mentais e que está preparando o almoço… Apelidado mais tarde no filme de Leatherface (traduzido, seria algo como “Cara de Couro”), este mascarado personagem vê os jovens apenas como carne para o abate.

Logo no início o filme aperta um poderoso botão de medo do público, o tabu da violação de cadáveres, apenas para introduzir outro tabu no final, o do canibalismo, na famosa “cena do jantar”. “Massacre” assusta pela desumanização: o filme equipara seus personagens a animais. Hooper nos mostra gado bovino, na casa do Leatherface há uma galinha presa na gaiola e nesse ambiente ouvimos na trilha sonora cacarejar de galinhas ou guinchos de porcos, estabelecendo o paralelo entre os bichos a serem consumidos e os próprios personagens que serão mortos.

E é interessante notar como a tensão é construída, pois nesse sentido o “Massacre” ainda permanece muito além da maioria dos exemplares de gênero e de todos os seus imitadores. Hooper alterna momentos de surpresa – como a primeira aparição do Leatherface, que surge do nada, sem quase nada para antecipar sua entrada em cena – com uma tensão que vai escalando cada vez mais. Os momentos que antecedem a morte da personagem Pam (Teri McMinn), por exemplo, são construídos com capricho: quando ela adentra a casa de Leatherface, a câmera a enquadra de costas, passando por baixo de um balanço, enquanto ela caminha na direção da estrutura cada vez maior e ameaçadora à sua frente; depois, já no interior, a direção de arte absolutamente bizarra cria a atmosfera de pesadelo muito antes da aparição do maníaco. Afinal, a cadeira decorada com um esqueleto e o chão coberto por penas são elementos difíceis de esquecer após serem vistos.

Como o “Massacre” inventou algumas convenções desse gênero, é interessante notar como ele faz uso de elementos que mais tarde seriam assimilados pelo público. O personagem Franklin, por exemplo, é paralítico, e ao invés do filme tentar criar no espectador uma simpatia por ele, Hooper e o ator Partain acabam fazendo o inverso, eles o tornam o mais antipático e chato dos personagens. O próprio Leatherface perturba e desafia o público, sendo caracterizado como uma criança – seu intérprete, o ator Gunnar Hansen, desenvolveu uma linguagem corporal quase infantil para ele, como na cena em que ele se mostra perturbado por todas as pessoas aparecendo em sua casa. Porém, ele é também sexualmente ambíguo. Na meia hora final do filme, quando Sally se torna prisioneira do maníaco e da sua família, vemos que ele parece ser a “mulher” do grupo – até sua máscara se torna feminina e suas atitudes, submissas.

Nesse trecho do filme outro tabu entra em cena, quando surge uma versão distorcida da unidade familiar. A grotesca família do Leatherface não tem papéis claros: O “Cozinheiro” vivido por Jim Siedow é o pai ou irmão dos outros? Por que não há nenhuma mulher, exceto pelo cadáver no sótão? E o “Vovô” – interpretado por John Dugan, na época um jovem disfarçado sob pesada maquiagem – é um personagem que desafia a compreensão, pois parece estar morto e volta à vida ao provar sangue. É nesse segmento que “Massacre” extrapola os confins do seu gênero e se torna também uma bizarra comédia de humor negro. Há muito humor no filme – nem sempre facilmente perceptível, é claro – decorrente do contraste, do choque entre os jovens mais “normais” e o louco núcleo familiar dos vilões.

Ninguém expressa melhor esse choque do que a atriz principal do filme, e Marilyn Burns tem aqui uma das mais incríveis atuações da história do gênero. Na meia hora final, basicamente a sua personagem passa o diabo nas mãos da família canibal, e o impacto do filme, em grande parte, se deve a ela, pois poucas atrizes conseguiram ser tão convincentes ao retratar medo e pavor quanto ela. Também viraram lendárias as histórias sobre as dificuldades das filmagens, e Burns foi uma das que mais sofreu: parte do sangue visto no seu figurino durante os minutos finais do filme não é cenográfico, a atriz realmente se machucou para fazer algumas cenas, o que só adiciona ao realismo da sua atuação.

Esse realismo é o que falta na maioria dos sucessores de “O Massacre da Serra Elétrica” dentro do gênero. Mas uma das coisas que o tornam fascinante é que ele não é completamente realista: ao adentrar dentro dos domínios loucos da família do Leatherface, Tobe Hooper diminui a verossimilhança da primeira parte do filme e cria uma atmosfera maluca onde tudo pode acontecer. Afinal, o tema principal de “Massacre” é a loucura, sobre o quanto ela está próxima de nós e, no filme, a loucura tem a forma mais assustadora possível, a forma humana. Não à toa, uma das imagens mais icônicas do longa é o super close no olho de Marilyn Burns enquanto ela grita, desesperada – é quando o assalto aos sentidos promovido pelo filme alcança seu auge. A imagem do olho, e outras com teor quase expressionista – como a tempestade solar que acompanha os créditos – convive junto com outras completamente banais e realistas, como a do tatu atropelado na beira da estrada.

São cenas como essa que dão ao filme sua força, ainda depois de tantos anos, e não a sanguinolência ou as mortes, pois “O Massacre da Serra Elétrica” não é tão gráfico ou sangrento quanto sua reputação sugere. É a energia indefinível do filme, criada pelo contraste entre realidade e estilização e pela exploração dos tabus sociais, que não consegue ser recapturada por todas as continuações, remakes e imitações do filme. Outros cozinheiros de Hollywood tentaram, mas o sabor e os temperos daquele primeiro churrasco de 40 anos atrás simplesmente não conseguem ser reproduzidos.

Tags: Filmes do outro mundo, Tobe Hooper

About the Author

Ivanildo Pereira Me formei em Ciências Biológicas mas o amor pelo cinema e pela arte falou mais alto. Depois estudei Jornalismo, tendo me formado em 2013 e escrevo sobre cinema desde 2010, após ter feito o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são meus maiores interesses…

Filmes do outro mundo: HERÓIS DE RESSACA (The World’s End, 2013) →
Filmes do outro mundo: CRASH: ESTRANHOS PRAZERES (Crash, 1996) →
Filmes do outro mundo: ARRASTE-ME PARA O INFERNO (Drag me to Hell, 2009) →
Filmes do outro mundo: DONNIE DARKO (2001) →

Compartilhe:

Ficha técnica

Título original
The Texas Chain Saw Massacre
Ano
1974
Direção
Tobe Hooper
Roteiro
Tobe Hooper, Kim Henkel
Elenco
Marilyn Burns, Edwin Neal, Gunnar Hansen, Paul A. Partain, Jim Siedow, Allen Danziger
Gênero
Terror, Crime, Mistério
Duração
1h 23min
País
Estados Unidos

Onde assistir

Ver onde assistir no JustWatch

Curiosidades

  • O filme foi vendido como baseado em fatos reais, mas é ficção: a inspiração veio, em parte, dos crimes de Ed Gein, que nos anos 1950 aterrorizou uma pequena cidade do Wisconsin.
  • Foi feito com um orçamento minúsculo, na casa dos 140 mil dólares, e se tornou um sucesso enorme de bilheteria.
  • Por falta de dinheiro, Gunnar Hansen tinha uma única camisa de figurino para Leatherface. Como estava tingida, não podia ser lavada, e ele a usou por semanas sob o calor do verão texano.
  • No set, ossos e restos de animais usados como cenário foram deixados apodrecendo no calor, e o cheiro chegava a fazer membros do elenco passarem mal.

Fontes: Boca do Inferno, Cineplayers, Sintoniza, Silvio Lobo

Leia também