Arte Com Pipoca

Memórias de Minhas Putas Tristes

Por Lexy Soares3 min de leitura

Quadrinhista, cineasta independente e cineclubista. Produz tiras e quadrinhos desde 2001 e presidiu o Cineclube Pilar, em Mauá (SP), onde dirigiu curtas, organizou mostras e ministrou oficinas. Colaborou com o Arte Com Pipoca entre 2014 e 2016.

Publicado originalmente em 19 de abril de 2014 no Arte Com Pipoca.

Falecido no último dia 17 de abril, o escritor Gabriel Garcia Marques foi um dos maiores nomes da literatura latino-americana. E, como forma de homenageá-lo, vou comentar uma adaptação cinematográfica de um de seus livros: Memórias de Minhas Putas Tristes, dirigido por Henning Carisen, e lançado em 2011.

Este filme é de uma beleza simples, e por isso mesmo, competente. A história mostra “O Sábio”, jornalista e escritor que, ao completar 90 anos, decide se dar um presente inusitado: uma noite de amor com uma virgem. Ele contata a cafetina do prostíbulo que frequenta desde a infância (isso mesmo, o filme mostra que ele perdeu a virgindade ainda menino), que lhe arruma uma adolescente virgem. Mas na noite em que eles deveriam transar, ele fica maravilhado ao vê-la dormindo na cama, e decide não fazer nada, apenas ficar olhando para ela, admirando sua beleza. Assim, aos poucos, ele descobre que está se apaixonando por ela, e começa a escrever contos na forma de cartas de amor que são publicadas no jornal em que trabalha.

Ao mesmo tempo, são mostrados vários momentos da vida dele, a infância em que descobriu o sexo observando a própria mãe tomando banho; seus relacionamentos com várias prostitutas; e até um quase casamento que não deu certo, pois ele abandonou a noiva no altar. Mas muitas dessas informações são passadas ao espectador de uma forma não óbvia, o que dão ao filme um tom quase onírico. Em um desses momentos, por exemplo, o do casamento, mostra O Sábio na cama, enquanto seus cunhados gritam na sua janela pra ele agir como homem.

Outra forma diferenciada que o diretor usa está em momentos como quando O Sábio conversa com a cafetina por telefone, mas eles são mostrados sem segurar o telefone, como se ambos falassem sozinho, mas um sempre respondendo o diálogo do outro. Genial.

E a forma como é mostrado o passado do personagem, alternando na hora mais inesperada, lembra um pouco o estilo que o Christopher Nolan usa em alguns de seus filmes.

Mas aqui temos um filme mais intimista, sobre sentimentos. Do tipo de sentimentos que não costumamos contar para todos, mas que sempre tem aquela pessoa especial em nossa vida que sabe exatamente como nos sentimos mesmo quando não falamos uma palavra. E, dentro desse tema, o filme ainda mistura isso com a busca pelo amor. Uma busca ao mesmo tempo obsessiva e romântica. Parece até meio cafona falar de uma pessoa que se apaixona quase ao final da vida, mas no filme isso acaba sendo uma busca tão pessoal do personagem que é como se houvessem dois mundos se chocando, o mundo em que ele vive em seu íntimo, e o mundo ao seu redor.

Este filme não é feito para quem procura por um cinema de entretenimento fácil, mas para quem aprecia “poesia visual”, pois esta obra não segue uma estrutura tradicional ao contar a história. Mas, quando o espectador se deixa levar pela emotividade do longa, ele passa a sentir cada momento de reflexão da trama, cada passo da vida d’O Sábio. Uma vida que, mesmo aos 90 anos, ainda pulsa paixão.

Arte Com Pipoca
Lexy Soares

Quadrinhista, cineasta independente e cineclubista. Produz tiras e quadrinhos desde 2001 e presidiu o Cineclube Pilar, em Mauá (SP), onde dirigiu curtas, organizou mostras e ministrou oficinas. Colaborou com o Arte Com Pipoca entre 2014 e 2016.

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