
Noé
Por Daniel SerafimAtualizado em 9 min de leitura
Publicado originalmente em 18 de abril de 2014 no Arte Com Pipoca.
Sinopse
Atormentado por visões de um dilúvio que vai destruir um mundo corrompido, Noé recebe a missão de construir uma arca para salvar a família e os animais. Enquanto enfrenta a ameaça de Tubalcaim e seus seguidores, ele passa a duvidar do próprio papel diante da vontade do Criador.
*“Esqueça completamente críticas negativas. Esqueça polêmicas criadas pelo islamismo, mesmo o catolicismo ou qualquer outra religião. A verdade é que o filme do genial Darren Aronofsky lança um olhar para a postura de Noé, entre sua relação com Deus e com os seus, tão cheia de uma ironia e de um sarcasmo saborosíssimos, procurando um equilíbrio crucial entre justiça e misericórdia, que incomodaria de fato aos literais. Incomodou aos literais religiosos e aos literais a obra de Aronofsky, que por não conseguirem enxergar a espada lancinante da direção de “CISNE NEGRO”, “O LUTADOR” e “RÉQUIEM PARA UM SONHO”, chegaram a taxar o filme como o pior da obra do diretor. Mas tal visão é pessoal e equivocada diante de um grande filme”
Dos tempos da (suposta) existência da figura bíblica de Noé aos tempos de hoje, o que teria mudado diretamente dentro das pessoas que acreditam na existência de Deus? Absolutamente nada. É exatamente este o grande mote no filme de Darren Aronofsky. Compor um personagem a partir de uma figura tão delicada e emblemática, mas que em nada é diferente da gente. O diretor foi ainda mais além, a despeito de quem tem toda aquela imagem do “Deus” do antigo testamento, embriagado num tremendo misticismo; ele nos submete a uma empatia com um personagem que talvez nunca (de fato) tenha ouvido a voz de Deus, ou seja, igualzinho a cada um de nós. Se tirarmos todo o contexto fantástico apresentado no filme, que conta com gigantes de pedra e com alguns toques sobrenaturais, então nós e o personagem seremos como um espelho, onde não haverá o que tirar e nem o que pôr. De fato é esta a proeza do diretor e engana-se quem pensa que, em “NOÉ”, fica difícil enxergar o mesmo diretor da assombrosa obra-prima “CISNE NEGRO”.
Através da oportunidade atual em trabalhar com recursos tecnológicos de infinita grandeza, que culminam num 3D equilibradíssimo, Darren enxergou a capacidade de, de repente, se distanciar um tanto daquele estilo característico da câmera documental, mas sem perder seu maior “fetiche”, aquela atenção quase que obsessiva nos literais complexos tabulados humanos, que tornam o ser humano uma figura que, de tão carnal, assusta. O recurso em 3D possibilita chegar ao foco, a história “fantástica” que envolve Noé, algo que foge da nossa inteligência, mas ela também não foi desmembrada, mesmo a construção da arca e a vinda das espécies de animais, ficaram resumidas, pois de fato o foco é outro. Anteriormente, seu recurso autoral da câmera documental, lhe permitiu mergulhar nos complexos humanos de forma violenta e raríssimas vezes reaparece no filme. Em “CISNE NEGRO” existe uma evolução da loucura na personagem de Natalie Portman narrada tão somente pela câmera ou ainda a narração visceral da desesperança redentora no personagem de Mickey Rourke, na igualmente obra-prima “O LUTADOR”. Deixando recursos técnicos à parte, em “NOÉ”, para construir uma narrativa que elucidasse todo o contexto, preferiu um roteiro que contaria com um único recurso: o primitivo.
O “primitivo” é um quesito usado por Darren, mas necessita de muita atenção. Noé, o personagem brilhantemente interpretado por Russell Crowe, ganha valor à medida em que cria empatia com o espectador. Ele é um homem discreto, de poucas palavras e objetivo de uma forma obsessiva, afinal, como ele mesmo diz, Deus o teria escolhido para tão grandiosa missão, não porque ele seja um homem “maravilhoso”, mas apenas porque Deus sabia que ele conseguiria terminar a tarefa. A relação para com Deus se desenrola mínima e também primitiva, esta também a causa de todas as polêmicas pelas quais a maioria das religiões monoteístas levantaram uma ira tamanha contra o filme. A relação de Noé com Deus é mínima, não é nada de acordo com o que a Bíblia relata, muito menos o Alcorão. Nesse sentido é relevante citar que certos aspectos do filme parecem ser inspirados por livros apócrifos, como o livro de Enoque, por exemplo, que discorre mais sobre a presença dos Nefilins na terra, supostos anjos “caídos” que tiveram boas intenções e sucumbiram, no filme retratados como criaturas petrificadas. Pois bem, certa noite, Noé tem apenas um sonho, na realidade um pesadelo, onde enxerga a serpente, o ser de onde proveio o pecado original, que trouxe a iniquidade para o homem e depois enxerga milhares de pessoas mortas dentro d’água, onde ele mesmo está. E vê também um grande monte verde, onde Matusálem, seu avô, deve estar e onde deve culminar toda a ação do reinício da humanidade. A sequência é soberba. Noé acorda intrigado. Pronto, basta isso para que em sua interpretação se certifique de que Deus falou com ele. No relato bíblico é o próprio Deus quem fala a Noé e o personagem sequer é mencionado falando; mas o filme, no que diz respeito a essa relação, é isento de qualquer ação sobrenatural ou cheia de misticismo. Ou seja, Noé não é alguém que fica orando o tempo todo ou fazendo propaganda de sua santidade, pelo contrário, ele crê em Deus, mas está na naturalidade de sua vida, dando conta de esposa (lindamente interpretada pela hipnótica Jennifer Connelly) e da criação de filhos. E assim a história se desenrola com sua jornada até o encontro com Matusálem quem, certamente, poderá lhe ajudar a esclarecer a voz de Deus. Tudo isso é amplamente contrário aos relatos “sagrados”, venham de que religião vier.
Devemos lembrar do quanto a figura de Noé é sagrada, no islamismo por exemplo ele é um dos profetas chamados de Nabi, aqueles que receberam de Deus a missão de dar a conhecer aos homens a vontade divina. A isso implicou ao filme “NOÉ” ter sido proibido na Malásia, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Kuwait e Indonésia. Lógico que o catolicismo não iria ficar de fora das polêmicas, o crítico do jornal do Vaticano Mimmo Muolo disse que é um filme “sem Deus” e que seria uma “oportunidade perdida”, pois o que era um conto bíblico transformou-se numa espécie de conto ecológico ou mistura de “HARRY POTTER” com “O SENHOR DOS ANÉIS”. Tudo um tremendo equívoco, afinal, Noé faz tudo o que faz por conta do seu acreditar em Deus, é um exemplo de fé. Mas saber que Darren, nascido judeu e hoje ateu, também “cutuca” esses tipos de posicionamentos, deixa o filme ainda mais saboroso. Nesse sentido, o crítico, o diretor embutiu o longa de tamanha ironia, a ser vista em situações como a de Matusalém, o personagem de Anthony Hopkins, que surge como uma espécie de “o mestre dos magos” de “A Caverna do Dragão”. Um homem misterioso, que oferece um auxílio muito discreto a Noé, seu neto; numa sequência antológica, embutida de sarcasmo, Noé o procura para relatar o sonho e pedir uma orientação. Ao invés disso o velho oferece a Noé um chá pelo qual ele perde a consciência e tem uma alucinação, que lhe lembra seu pesadelo. Oras, o tal chá poderia ser qualquer coisa, desde Ayahuasca até chá de cogumelo. Cenas assim dão a impressão de que o diretor, com o filme, também diz aos seres humanos “vejam o que vocês fazem com o “Deus” de vocês, vejam como vocês se perdem no “Deus” de vocês, vejam como Noé era mais primitivo que vocês e acreditou mais no mesmo “Deus” que vocês dizem crer”.
“NOÉ” tem ainda um foco maior. De acordo com o diretor, numa de suas entrevistas para promover o filme, ele e seu roteirista habitual Ari Handel, compuseram todo um filme em torno da tal dura decisão de Deus em destruir a criação e como ela pesou no coração de Noé. Mas aí também o diretor foi além, se repararmos bem, veremos que o personagem Noé, na verdade reflete o próprio Deus; suas angústias, suas dúvidas, suas incertezas a respeito do que está prestes a acontecer (construir uma arca para que consigam salvar a criação e sua família, enquanto a humanidade lá fora é exterminada) são também faces da decisão de Deus. E são mais esclarecidas à altura em que, após o dilúvio, conflitos e tensões familiares crescem dentro da arca. Pois se Deus quis exterminar a humanidade, como Noé permitirá a gravidez de sua filha adotiva dentro da arca? Ele deve ser justo ou misericordioso? Na sua obsessiva angústia, que lhe consome a cada dia, decide que se a criança for homem viverá, mas se for mulher morrerá. O desfecho da situação é impressionante, sem outras palavras mais, para conseguir calar a boca dos mais valentões. Existe, o tempo todo, uma verdadeira luta para que se chegue a um equilíbrio entre “ser rigoroso demais” e “ser misericordioso demais”. Vê-se assim uma tragédia, bem no estilo grego, aliás, não é nada à toa que um dos tais guardiões de Deus, um amargurado gigante de pedra, tenha o rosto entristecido como o da famosa máscara da tragédia grega. É de fato sublime, como uma história das mais importantes vira uma crônica nas mãos do diretor. A história de Noé inclusive aponta para o que a tradição religiosa sempre chamou de “prefiguração”, todo o sacrifício de Noé é visto como o sacrifício de Cristo em ter lavado a humanidade em seu sangue com a morte de Cruz. Também a figura de Maria, a mãe de Jesus, é chamada de “a arca da nova aliança”, que carregou Jesus em seu ventre. A citação diz respeito de outra arca, a que guardou as tábuas da lei, mas também a arca de Noé. E pra fechar, não custa dizer um detalhe, se fosse pra dizer de uma crença presente no filme, seria a Cabala, pois até a citação ao “Zohar” existe. O Zohar é uma série de comentários sobre a Torá com o objetivo de guiar aos mais espiritualizados. Seria mesmo impossível não esperar menos de um diretor, dos mais instigantes, surgido nos últimos anos nos EUA.
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Ficha técnica

- Título original
- Noah
- Ano
- 2014
- Direção
- Darren Aronofsky
- Criação
- Darren Aronofsky
- Roteiro
- Darren Aronofsky, Ari Handel
- Elenco
- Russell Crowe, Jennifer Connelly, Anthony Hopkins, Logan Lerman, Douglas Booth, Emma Watson
- Gênero
- Aventura, Ficção especulativa, Filme épico
- Duração
- 2h 18min
- País
- Estados Unidos
Onde assistir
Curiosidades
- Darren Aronofsky era fascinado pela história de Noé desde a adolescência e disse sonhar com o projeto desde os 13 anos.
- Foi a segunda vez que Russell Crowe e Jennifer Connelly interpretaram marido e mulher, depois de "Uma Mente Brilhante" (2001).
- Diante da polêmica com grupos religiosos, a Paramount incluiu na divulgação um aviso de que os realizadores tomaram liberdades artísticas em relação ao texto bíblico.
- O filme foi proibido em países como Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, onde a representação de profetas é considerada inaceitável.
Fontes: Wikipédia, NBC News, Portal Gilda Bonfim, Diario de Cuyo
