
Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum
Por Daniel SerafimAtualizado em 11 min de leitura
Publicado originalmente em 16 de março de 2014 no Arte Com Pipoca.
Sinopse
Nova York, 1961. Llewyn Davis é um cantor de folk talentoso e sem sorte, que passa as noites de sofá em sofá na casa de amigos, carregando o violão e, por acidente, o gato de um conhecido. Ao longo de uma semana de inverno, ele tenta de todo jeito dar um rumo à carreira, enquanto parece sabotar cada oportunidade que aparece.
“É autoral. É inebriante. É singular. É a melhor parte dos irmãos Coen, guardada até agora, mas oferecida em profusão. Filme se distancia de cinebiografias feitas com roteiros lineares, se distancia da própria filmografia dos irmãos, surgindo como um fragmento, cujo elo é personagem todo entregue à subjetividade, em meados de momento íntimo da música. Torna-se um deleite aos olhos, mas principalmente aos ouvidos.”
Os irmãos Coen são filhos de judeus. Entre os judeus, um antigo costume fazia com que os donos das festas servissem primeiro o vinho bom e depois, quando os convidados já estivessem embriagados, servissem o vinho pior. Existe um relato bíblico, da famosa passagem das bodas de Caná, onde Jesus realiza seu primeiro milagre transformando a água em vinho, em que o costume é delatado pelo chefe dos serventes da festa. Ao final do texto o mesmo chefe solta a pérola dirigindo-se ao noivo “Mas tu guardaste o vinho melhor até agora”. De certa forma, é do mesmo preceito que os irmãos Coen se servem, guardadas as devidas proporções, numa entrega da melhor parte de si próprios, não para um final de carreira, mas para um momento emérito de sua filmografia. Ao longo de uma jornada que chegou ao seu 16º filme, é notável que justamente o 16º tente como que “escapar” de toda a personalidade linear da maioria das obras anteriores. Na realidade os irmãos se esforçaram por alinhar toda a sua essência, que antes eles mesmos dosaram, filme a filme. E o resultado não poderia ser melhor, pois justamente neste momento, eles liberam em profusão aquilo que tem de mais humano e que talvez tenha ficado tanto tempo protegido: uma veia autoral tão viva e tão pulsante, que figura como um anestésico à alma. De fato esta é uma impressão muito íntima e muito singular após assistir ” INSIDE LLEWYN DAVIS – BALADA DE UM HOMEM COMUM ”, que poderia se dizer então a melhor parte, antes guardada, dos irmãos Coen.
Os comentários mais impulsivos chegam a taxar o filme como “história da música folk”, mas não é, nem de longe. Acontece que Joel e Ethan, nutrindo um encantamento particular pelo estilo, enxergaram no princípio histórico-cultural da música, uma inspiração para filmar. Sendo assim, inspiraram-se no momento mais célebre de Nova York, em que eclodiam as particularidades musicais e focaram no artista David Kenneth Ritz, ou simplesmente Dave Van Ronk, como é mais conhecido. O artista de fato tornou sólido o estilo “folk musical”, enraizou no Greenwich Village, Nova York e atraiu as atenções para o famoso “The Gaslight Café”, de onde, num ápice, mais tarde, sairia o filho predileto da música Bob Dylan, que teve em Ronk uma obsessão. Justamente o “The Gaslight Café” tornou-se o berço desse estilo, para onde os cantores vinham se apresentar, mas a popularização do local só foi possível por conta de Dave Van Ronk, que depois ficou conhecido como o “prefeito de Macdougal Street”, uma espécie de imagem paterna. “O prefeito de Macdougal Street” inclusive é o nome do livro de memórias sobre Dave, de onde também se inspira o filme, mas como nem tudo que reluz é ouro, após assisti-lo, vemos que nem a metade de tais informações valiosas ditas aqui sobre o momento histórico da música, está presente. É o mote do filme. Os diretores preferiram a distância direta de personagens reais, de fatos históricos, para que pudessem a seu modo usar o contexto e criar uma tragédia, afinal, esta é a “balada de um homem comum” e ainda é um filme dos irmãos Coen. É por conta disso que no início do filme, apenas uma data e o nome do local, nos situam no contexto histórico. Estarão presentes ainda personagens, que apontam para os que existiram e estarão presentes nas músicas que, de certa forma, nos ligam a Dave. Num segundo momento, a alma do filme também se apoia no quesito musical, totalmente inspirado pelo disco “Inside Dave Van Ronk” de 1964, porém, poucas músicas do cantor estão presentes. Isso demonstra mais ainda o quanto a particularidade, a autoria, define a obra. Os irmãos juntaram-se ao músico T-Bone Burnett, veterano de suas filmografias, para ajudar a compor, ao lado deles e também de Justin Timberlake, que atua no filme, as canções.
O início do filme é magistral, descobrimos o ator Oscar Isaac interpretando Llewyn, o personagem que é essa junção de Dave Van Ronk e aqueles cantores que iam para o “The Gaslight Café” a fim de serem conhecidos (e receberem a bênção do próprio Ronk). Ele está interpretando a música “Hang Me, Oh Hang Me”, com o timbre vocal perfeito e cantando aquela melancolia, na qual o personagem vai mergulhar. Interessante que assim como em Portugal o estilo musical “fado” canta a angústia e o folclore de forma toda chorosa, no estilo “folk” existe a junção de uma espécie de folclore com tons de rock melódico, mas também muito choroso e, na maioria das vezes, impiedoso (como o próprio Llewyn diz ao final da música, a canção Folk é velha, mas nunca envelhece). Pois ” INSIDE LLEWYN DAVIS ” se serve disso, mantém em suas músicas todo o aspecto impiedoso, angustiante, ocupando o espaço que outrora na filmografia dos Coen fica a encargo do humor ácido. Esse é justamente um filme que vai acompanhar a trajetória de um personagem em busca de uma chance, em busca de um sonho, de uma oportunidade, mas que só encontrará a decepção. A filmografia dos irmãos é familiar com essas histórias, de personagens que dão errado, mas que aqui vai além. Se em sua obra-prima ” ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ ” o mote era um estudo sobre a impotência diante da lei da sobrevivência entre o mais forte e o mais fraco; aqui o mergulho é na humanização de um personagem à mercê da coragem, ele está decidido a arriscar-se e o seu salário é incerto, mas o que vale a pena é o que se tem de melhor a oferecer, ou seja, o dom para a música. A vida de Llewyn é de “baixos”, não de altos, ela fica um pouco mais viva quando ele canta, enquanto na maior parte do tempo é cheia de decepções. Ainda no início do filme, após a apresentação, Llewyn apanha de um sujeito, entre a sombra do beco e um facho de luz. O personagem assume a tristeza em saber que Jean, a personagem de Carey Mulligan, está grávida do filho que poderia ser seu, mas que certamente é de Jim, seu amigo, interpretado por Justin Timberlake. Mais à frente Llewyn toma o caminho para chegar a Chicago em busca de um produtor, que ele descobre por intermédio do amigo de Jean e Jim, que parece “um zero à esquerda”, mas que quando canta soa tão talentoso quanto Llewyn, senão mais que ele.
Pois bem, Llewyn Davis constrói-se dessa forma e ganha ainda mais sentido. De fato, poucos personagens conseguem aludir para o sentido de correr atrás de um gato como ele. Existe uma constante entre roteiristas que diz que se conhece um personagem por atitudes como, por exemplo, salvar um gato. O princípio foi imortalizado pelo roteirista Blake Snyder, que cunhou um compêndio, explicando isso e seus derivados. Segundo ele o público se conquista quando essas atitudes fazem do personagem um herói. É de fato o que Llewyn faz. Correr atrás do gato, salvá-lo e manter a responsabilidade sobre ele é tão subjetivo em ” INSIDE LLEWYN DAVIS ”, quanto os preceitos judaicos são nos irmãos Coen. Da mesma forma que quando Llewyn devolve o gato errado ao amigo, pensando ser o certo, é constrangedor. Correr atrás do gato significa correr atrás de si próprio, daquilo em que ele acredita e talvez esta seja a última chance de tornar-se o herói de si próprio. É nesse sentido que a interpretação de Oscar Isaac é louvável, é perfeita, transparecendo aquele olhar melancólico, quase infantil, que também reflete a atmosfera exterior. Mais um ponto pelo qual a beleza do filme se expressa, o cenário externo é o cenário interno do personagem, quando o inverno nova-iorquino toma conta da narrativa, tudo fica mais plausível em sua jornada miserável. A melhor das sequências do longa, a mais impressionante, fica a encargo da viagem do personagem para Chicago, ao lado de dois tipos absurdos. É quando surge John Goodman num papel coadjuvante espetacular, coroando sua participação nos filmes dos Coen, interpretando um músico obeso, pesado no sentido mais amplo da palavra, que só fala desgostos ao personagem e que se droga como um condenado. Tais sequências aumentam a identidade de desesperança de Llewyn. E tudo culmina em Chicago, no encontro com o produtor interpretado discretamente, notavelmente, por Sir Ben Kingsley (talvez na melhor participação especial do ano). O encontro revela o momento mais sublime do filme, onde Oscar Isaac interpreta a melhor canção, “The Death of Queen Jane”. A música, de domínio público, remonta à rainha Jane cantando durante uma gestação completa, um pedido de misericórdia por ter um bebê do seu lado direito. Parece que Llewyn canta sua maior dor de não ter um filho que poderia ser seu. É a profundidade mais funda de um abismo existencial. Do mesmo jeito não cai em nada nas graças do produtor. Depois de tal encontro ele vai convir consigo próprio que deve voltar para a marinha. É lancinante.
Perceber a proeza da câmera dos Coen aqui é um espetáculo à parte, com referências até a Will Eisner, que traz essa combinação de HQ urbana, mesclando as luzes e as sombras de Nova York, em especial no aspecto noturno, tão explícito na sequência inicial do filme em que Llewyn apanha no beco. Os irmãos paradoxalmente captam a história desse momento do processo musical de uma maneira muito implícita e muito contemplativa. Eles não estão interessados em dados ou nomes de pessoas, mas eles estão interessados unicamente no personagem. A forma contemplativa como eles enxergam as passagens, como se movimentam e se desenvolvem, fazem uma referência, de certa forma, a como Eisner enxergava sua atmosfera urbana. Se Eisner via nos apartamentos, nos “subways”, nos becos, personagens tão característicos, às vezes submersos ao calor do dia ou às vezes embaixo da chuva, em meio às sombras da noite; aqui também os irmãos Coen enxergam um personagem sempre atrelado a um casaco, à inquietude do inverno e a um gato, seja dentro do apartamento, dentro de um trem ou sobre a discrição do palco do “The Gaslight Café”. Numa das sequências mais belas, quando Llewyn está no trem carregando o bicho, a câmera se perde no olhar do felino, que passa pelos nomes das estações, refletido no vidro. Traz assim para o subjetivo a mesma forma como Llewyn se encontra. É sublime.
A fotografia, calcada na sombra e na luz, evidencia a impressão de iluminação, sempre a invadir o espaço em fachos. Dessa forma os personagens, sempre quando estão no foco da câmera, milimetricamente posicionada, formando enquadramentos ou retangulares ou quadriculares, redondamente simétricos, tornam-se redentores. Em sequências como as que Llewyn está se apresentando no “The Gaslight café” e, em especial a sequência em que Carey Mulligan, Justin Timberlake e Stark Sands cantam juntos, esclarecem o sentido da luz. Durante essas performances a impressão que se tem é que a câmera, a fotografia, os transforma em criaturas angelicais, cheias de redenção, através de um banho econômico de luz, focando na simetria dos seus rostos, criando uma aura iluminada em torno deles. Lógico que essa fotografia remete de fato ao estilo da época, presente nas capas dos discos, onde os artistas apareciam sempre iluminados e de perfil, quase como se fossem um desenho ou uma pintura. A própria Carey Mulligan na mesma sequência aparenta um rosto tão perfeito, como se fosse de cera, o que a torna angelical ao extremo. Os irmãos Coen parecem assim comunicar que, num filme amargo, somente na música está presente a redenção. Brilhante o trabalho de fotografia de Bruno Delbonnel, veterano de filmes como ” O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN ”, mas que em ” INSIDE LLEWYN DAVIS – BALADA DE UM HOMEM COMUM ”, está mais próximo do trabalho monumental que criou em ” FAUSTO ”, do russo Alexander Sokurov, com paletas de cores rústicas, frias e esverdeadas, às vezes quase cinza. Assim figura como aula de Cinema o 16º filme dos Coen, distante do humor assumidamente cadavérico, mas mais próximo do que eles queriam deixar claro da expressão de si próprios, que também dentro deles exista uma visão eloquente do que viver possa representar em se tratando do simples fato de existir. Nem sempre essa constante beira a sorte (como já discutido em ” UM HOMEM SÉRIO ”) ou mesmo a felicidade, mas sempre tem uma jornada; se feliz ou se triste tem de ter uma coragem embutida. É a melhor parte dos irmãos Coen.
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Ficha técnica
- Título original
- Inside Llewyn Davis
- Ano
- 2013
- Direção
- Ethan Coen, Joel Coen
- Roteiro
- Ethan Coen, Joel Coen
- Elenco
- Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, John Goodman, Garrett Hedlund, F. Murray Abraham
- Gênero
- Drama, Comédia dramática
- Duração
- 1h 45min
- País
- Estados Unidos, França
Prêmios
- Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2013
- 2 indicações ao Oscar (Fotografia e Mixagem de Som)
Onde assistir
Curiosidades
- O personagem é livremente inspirado no cantor folk Dave Van Ronk e em suas memórias; o título ecoa o disco "Inside Dave Van Ronk", lançado por ele em 1963.
- Oscar Isaac e o elenco cantaram as músicas ao vivo durante as filmagens, com supervisão musical de T-Bone Burnett, parceiro dos Coen em "E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?".
- Em Cannes, Joel Coen brincou que o filme não tinha exatamente uma trama e que por isso os irmãos "colocaram o gato" na história. O bichano se chama Ulisses.
Fontes: AdoroCinema, CBS News, Papo de Cinema, Wikipédia (en)
