
12 Anos de Escravidão
Por Daniel SerafimAtualizado em 8 min de leitura
Publicado originalmente em 20 de fevereiro de 2014 no Arte Com Pipoca.
Sinopse
Em 1841, Solomon Northup é um violinista negro que vive livre com a família no estado de Nova York. Atraído a Washington com uma proposta de trabalho, ele é sequestrado e vendido como escravo. Pelos doze anos seguintes, passa de fazenda em fazenda na Louisiana, tentando sobreviver sem perder a própria identidade.
“Diretor funde importante adaptação literária dos tempos da escravidão americana, codificada pela Inglaterra, em obra cinematográfica histórica. Dessa forma realiza uma ‘mise-en-scène’ opulenta, definitiva e corajosamente questionadora onde, a violência física e psicológica, questiona a inércia de dois continentes mal resolvidos frente à questão. E que até hoje permanecem em seu cinismo e perversidade.”
Quando você ler alguma crítica ou escutar algum crítico referindo-se a “12 ANOS DE ESCRAVIDÃO” como “um tapa na cara dos EUA”, “um soco no estômago”, “um mergulho num tema indigesto da história” ou ainda “um filme necessário”, saiba: se ao ler ou ouvir a crítica, você perceber que se comenta bastante sobre as interpretações, sobre o roteiro, sobre a direção magistral do longa feita por Steve McQueen, que poderia ser o primeiro diretor negro da história a levar um Oscar; e se não existir um mínimo de uma referência clara, transparente e direta em relação a história da escravidão americana com dados (e também no mundo, como um todo); e se diante disso aquilo que o filme de fato, então significa, num confronto com essa mesma história, deixando clara a sua verdadeira importância; se isso tudo não estiver bem esclarecido, existirá mais uma coisa pra você saber: que a crítica que você estará lendo, ouvindo ou mesmo assistindo, é uma das mais pobres que você já pode acessar, independente de ser ou não um crítico dos mais famosos ou dos mais cheios de credibilidade possível.
Pois ficaria muito simples e muito vago dizer apenas que o filme questiona a história. E para ser uma obra questionadora em síntese, no sentido mais literal e mais verdadeiro possível, é necessário entender de onde ela vem, compreender o que ela é e sentir pra onde ela vai (no sentido de como possa influenciar a arte ou o modo comportamental-social das coisas). E “12 ANOS DE ESCRAVIDÃO” é tudo isso e muito mais. Mas onde isso tudo começa? Na própria história, afinal, os presidentes Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, heróis da guerra contra os britânicos pela independência, eram quem também compravam, vendiam e empregavam mão de obra africana, mas o país, dividido em colônias pelos britânicos, já contava com um número de população negra. Quando os ingleses rebatizaram uma dessas colônias como Nova York, em 1664, os escravos representavam 20% da população da cidade. Na Pensilvânia, o colono inglês William Penn, autorizou em 1684 a vinda de 150 africanos e vale dizer que uma grande maioria de negros vinha do Caribe. Mas a independência dos EUA aconteceu gradativamente e demorou 20 anos para que o parlamento britânico se conscientizasse dos direitos daquele que não deveria ser mais uma junta de colônias, mas um país próprio. Se hoje os EUA já é um devorador, tanto mais a Inglaterra era. Pois bem, é justamente nesse sentido que a figura de Steve McQueen ganha reverência: um diretor negro, britânico de Londres, que filmou a rotina de escravidão das Américas, que teve uma boa escola com a Inglaterra, onde realiza aqui uma espécie rara de simbiose, dessas que só pode acontecer no Cinema uma única vez, afinal, na mesma tacada, ele foi capaz de deixar duas superpotências (EUA e ING) envergonhadas de si próprias. Fato.
Como se não bastasse, o filme é uma adaptação do livro homônimo “12 Years a Slave”, escrito em 1853 por Solomon Northup, um negro livre, culto e inteligente, nascido no Estado de Nova York e que foi sequestrado em Washington, em 1841 e vendido como escravo. Nesta época os negros viviam duas realidades no país, pois enquanto ao norte (onde Solomon residia) vivia-se muito gradativamente um esforço pela abolição, ao sul a resistência era grande e era lá que se concentravam as lavouras, onde permaneciam os maiores números de escravos. Lógico, Solomon era um negro nascido livre, já beneficiado com certas medidas, mas a emboscada da qual foi vítima demonstra a falta de esforço do próprio norte do país em favorecer a causa. Também pudera, um lado ficava atrelado ao outro, afinal, era das grandes fazendas de algodão de onde também prosperava a economia do norte. O que fica explícito no filme, pois a ‘mise-en-scène’ ocorre toda dentro de uma dessas propriedades do algodão, de onde também saem as cenas mais belas do longa. O detalhe aponta justamente para o fato de que, muitas vezes um fazendeiro tinha uma dívida e chegava num ponto onde a única saída era pagar com seus escravos. Dessa forma Solomon parte da propriedade de William Ford (o atualmente em evidência Benedict Cumberbatch) para a propriedade de Edwin Epps (o colossal Michael Fassbender).
Se o livro é cru nos detalhes, tanto mais a câmera de McQueen fez questão de deixar o filme sólido e realista, que abandonou um tanto de lado seus estilos de filmagens verticais, que marcaram sua estreia no Cinema com o filme “HUNGER” e partiram para a estética convencional, usada depois já em “SHAME”, estilo absurdamente calcado nos atores e nos sentidos (ou seja, nos meandros do roteiro). Dessa forma, por exemplo, não existe limite em mostrar uma sequência ávida de tortura no tronco de Patsey (a personagem de Lupita Nyong’o, em interpretação antológica), assim como não existe limite em mostrar como suas costas ficaram depois, numa fotografia barroca da pele que enfoca cicatrizes bizarras. De fato é a sequência mais chocante do longa, mais psicologicamente sofrível, posto que a personagem é submetida ao volumoso castigo, pois havia tomado a decisão desesperadora de buscar um sabonete no vizinho pra tomar um banho. Tudo porque a esposa de Mr. Epps, traída pelo marido com a negra, proibiu o sabão. O relato de Patsey para o seu mestre é de que “ela está fedendo tanto que até vomita”, é desesperador, mas o resultado é um açoite no tronco que até as sequências de açoitamento em “A PAIXÃO DE CRISTO” parecem ficar no “chinelo”. A personagem de Lupita, aliás, é tão rica que surge, não para apontar aos abusos da mulher negra escrava, mas fazer um contraponto com a situação a que o personagem de Chiwetel Ejiofor (em entrega sangrenta ao papel) está submetido, pois por si só o personagem já é desolador e seu contexto já é de uma violência extrema. Ou seja, ficam de lado o fato de ter nascido livre, ser esposo, ser pai, ser culto (e tocar um violino perfeito) e surgem os infernos da escravidão. E Patsey cria um vínculo com Solomon, que na verdade a esta altura está iconizado como Platt, justamente nesta inferência. Numa das sequências, ela o procura pela madrugada e pede a ele uma gentileza com olhares arregalados: que ele a leve para o pântano e dê fim a sua vida. Ele nega logicamente, mas a verdade é que estão os dois no mesmo barco e de nada adianta, ambos estão encurralados. A cena mesmo aponta para outra, do início, quando uma escrava, ainda na propriedade anterior, repreendida por Solomon devido a chorar dia e noite pelos filhos, questiona-o a respeito do por que ele não chora por suas crias. Ao que ele responde que aceitou a situação por questão de sobrevivência, afinal, imagine sucumbir totalmente.
E assim se passam os tais 12 anos, vislumbrados pela fotografia que observa um pôr do sol, os ventos sobre as árvores do pântano e os acontecimentos flagrados pela câmera de McQueen. Uma câmera que funde a adaptação de um dos relatos mais curiosos do período, que subjetivamente retrata uma caminhada histórica feita por dois continentes, Inglaterra e EUA, mas que no fundo é solitariamente questionadora e focada na América. Surge sozinha numa indústria cinematográfica que evitou enfiar o dedo na ferida, de acordo com o próprio diretor que disse que “filmes sobre o holocausto têm centenas, mas sobre a escravidão têm poucos”. No entanto, assim como no Brasil, o assunto é mal digerido, como também na Europa. A escravidão gerou dissoluções cerebrais que se perdem nos debates, que se perdem nas cotas e que se perdem na construção histórica ou política dos países. “12 ANOS DE ESCRAVIDÃO” é filme feito de interpretações antológicas, seja dos que mais sofrem como Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o (e qualquer prêmio será pouco), seja de vilões como Fassbender ou Sarah Paulson (que caiu como um raio ao interpretar sua esposa traída) ou seja ainda de meros coadjuvantes como Paul Giamatti, Paul Dano (especializando-se no papel de pessoas bizarras) ou mesmo de Benedict Cumberbatch. Um trabalho desses, tido como o filme definitivo sobre o período da escravidão, todo numa perfeição monumental de trilha sonora, de reconstrução de época, de roteiro e, lógico, num momento perfeito de direção onde Steve McQueen atinge uma certeza cinematográfica impressionante. Afinal, não sabemos da potência do teor do longa se fosse feito por um diretor branco, mas um diretor negro filmar tamanho ritual de horrores, feitos há uma geração de onde ele mesmo assumiu ser herdeiro (pois teve antepassados escravos), é de se fazer parar e entregar toda a credibilidade possível e impossível. É nítida a impressão de desconforto do diretor durante o filme, são vários os momentos em que a própria câmera parece querer fugir das atrocidades, mas ela mesma é devorada e fica ali estática. Numa das sequências mais desoladoras, Solomon é dependurado por uma corda numa árvore. Enquanto ele está lá agonizante, a luz vai clareando, as pessoas vão saindo das casas e jamais são vistas expressões derivadas da situação. Tudo está inerte. Seria uma crítica a gerações que até agora se comportaram assim, na inércia, frente às décadas de escravidão com a qual seus países se alicerçaram? Bravo!
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Ficha técnica
- Título original
- 12 Years a Slave
- Ano
- 2013
- Direção
- Steve McQueen
- Roteiro
- John Ridley
- Elenco
- Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Lupita Nyong'o
- Gênero
- Drama
- Duração
- 2h 13min
- País
- Reino Unido, Estados Unidos
Prêmios
- Oscar de Melhor Filme
- Oscar de Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o)
- Oscar de Roteiro Adaptado (John Ridley)
- 9 indicações ao Oscar
- Globo de Ouro de Melhor Filme Drama
- BAFTA de Melhor Filme
- Prêmio do Público no Festival de Toronto 2013
Onde assistir
Curiosidades
- O filme adapta as memórias que Solomon Northup publicou em 1853, no seu primeiro ano de liberdade. Quem encontrou o livro foi a companheira de Steve McQueen, Bianca Stigter, quando ele buscava uma história sobre um homem livre escravizado.
- Foi o filme de estreia de Lupita Nyong'o no cinema, e o papel de Patsey lhe rendeu o Oscar.
- É a terceira parceria de Steve McQueen com Michael Fassbender, depois de "Fome" (2008) e "Shame" (2011).
- Na vida real, os homens que sequestraram Northup foram localizados e processados, mas o caso se arrastou por questões de jurisdição e ninguém foi punido.
Fontes: AdoroCinema, Cinema10, Jornal da Paraíba, Wikipédia (en)
