
Crítica: La La Land (2016) e a melancolia agridoce do sonho
Por Senna Ricarte12 min de leitura
Desenvolvedor e especialista em SEO, é o fundador do Arte Com Pipoca e um nerd consumidor compulsivo de informação e cultura. Atua na internet desde 2010.
Nota: 9.5/10
Poucos filmes do século 21 apostaram tanto na própria fé no cinema quanto La La Land: Cantando Estações. Depois de Whiplash, em que o jazz era um campo de batalha entre um baterista e seu professor sádico, Damien Chazelle voltou ao mesmo tema, a obsessão artística, mas trocou o suor e o sangue pelo technicolor, pelos sapateados ao entardecer e por uma Los Angeles que parece pintada à mão. O roteiro existia desde o início da década e foi recusado por estúdios que não acreditavam em um musical original com canções inéditas. Quando finalmente chegou às telas, abrindo o Festival de Veneza de 2016, virou fenômeno: recorde de sete Globos de Ouro, 14 indicações ao Oscar, igualando A Malvada e Titanic, e seis estatuetas, incluindo a de Melhor Direção para Chazelle, então com 32 anos.
O que sustenta La La Land quase uma década depois, porém, não é a coleção de prêmios. É a coragem de usar a linguagem mais otimista que Hollywood já inventou, o musical, para contar uma história sobre o preço de sonhar.
“Another Day of Sun” e a Los Angeles technicolor de Damien Chazelle
O filme começa num engarrafamento. Em um viaduto de acesso entre duas autoestradas de Los Angeles, motoristas presos sob o sol de inverno saem dos carros e começam a cantar e dançar sobre capôs, tetos e para-choques. “Another Day of Sun” é uma declaração de intenções: em menos de seis minutos, Chazelle apresenta o tom, a paleta e o tema do filme. A letra fala de jovens que deixaram tudo para trás em busca de uma chance em Hollywood, e a coreografia transforma o símbolo máximo da frustração urbana, o trânsito, em palco.
Uma cidade filmada como cenário de estúdio
Chazelle e o diretor de fotografia Linus Sandgren, premiado com o Oscar pelo trabalho, filmam Los Angeles como os musicais da MGM filmavam seus cenários construídos. Os figurinos em amarelo, azul e verde primários, os céus em tom de lavanda no crepúsculo e os postes de luz no alto de Griffith Park compõem uma cidade que nunca existiu exatamente assim. O filme foi rodado em CinemaScope, formato widescreen associado aos musicais dos anos 1950, e a escolha não é capricho: cada enquadramento carrega a memória de um cinema que o próprio filme sabe estar perdido.
A estrutura das estações
A narrativa se divide em capítulos nomeados pelas estações do ano: inverno, primavera, verão, outono e, por fim, um novo inverno cinco anos depois. O recurso, que dá o subtítulo brasileiro ao filme, organiza o romance entre Mia, aspirante a atriz que trabalha como barista num estúdio de cinema, e Sebastian, pianista de jazz que sonha abrir o próprio clube. O ciclo das estações antecipa o que o espectador só aceita no fim: aquele amor tem começo, auge e declínio, como tudo que é sazonal.
Nostalgia contra modernidade: o jazz de Sebastian e o pragmatismo artístico
Ryan Gosling, que passou meses aprendendo piano para tocar ele mesmo as peças em cena, compõe Sebastian como um purista quase insuportável. Ele idolatra um jazz que considera em extinção, guarda como relíquia o banquinho em que Hoagy Carmichael teria sentado e despreza qualquer concessão ao público. É o personagem mais parecido com o próprio Chazelle, um cineasta que fez de sua carreira um elogio a formas artísticas fora de moda.
Keith e a pergunta incômoda
O contraponto vem de Keith, vivido pelo músico John Legend. Velho conhecido de Sebastian, ele o convida para tocar teclado numa banda que mistura jazz, pop e eletrônica. Na cena mais inteligente do filme, Keith desmonta o discurso do protagonista: como salvar o jazz se ele só toca para meia dúzia de saudosistas? “Você é tão revolucionário sendo tão tradicionalista?”, provoca. O número “Start a Fire”, apresentado num show lotado, é propositalmente o momento menos encantador do filme, e Chazelle filma o rosto de Mia na plateia percebendo que Sebastian está ali sem acreditar no que faz.
O próprio filme como paradoxo
A discussão entre Sebastian e Keith é, no fundo, a discussão sobre La La Land. Um musical original em 2016 é tão anacrônico quanto um clube de jazz tradicional. Chazelle resolve o dilema fazendo exatamente o que Keith propõe: honra a tradição, mas a atualiza com uma estrutura narrativa moderna, números mais íntimos e um final que os musicais clássicos jamais ousariam. O filme é a prova de que a nostalgia só funciona quando conversa com o presente.
Emma Stone e a consagração de Mia
Se Gosling tem o carisma, Emma Stone tem o filme. Mia passa boa parte da história sendo rejeitada em testes de elenco humilhantes, interrompidos por diretores que atendem o telefone no meio de uma cena dramática. Stone interpreta essas pequenas derrotas com uma precisão cômica que nunca anula a dor, e é essa combinação que prepara o terreno para o momento mais importante de sua carreira até então.
“Audition (The Fools Who Dream)”
Depois de quase desistir de tudo e voltar para a casa dos pais em Boulder City, Mia é chamada para um último teste. Em vez de ler um roteiro, os diretores de elenco pedem que ela conte uma história. O que vem a seguir é “Audition (The Fools Who Dream)”, uma canção sobre a tia que pulou num rio gelado de pés descalços e brindou “aos tolos que sonham”. Stone cantou ao vivo no set, num plano que começa aberto e se fecha lentamente sobre seu rosto, enquanto o fundo escurece até restar apenas ela e a música.
A cena funciona porque abandona toda a artificialidade do resto do filme. Não há dança, nem cores saturadas, nem truques de câmera. É uma atriz, uma voz trêmula e uma declaração sobre a teimosia de quem escolhe a arte. Foi esse momento que, em grande medida, garantiu a Stone o Oscar de Melhor Atriz e a Copa Volpi em Veneza.
A força dramática de Mia
O mérito da construção de Mia está em não transformá-la em coadjuvante do sonho de Sebastian. É ela quem escreve, produz e encena um monólogo próprio, quem enfrenta a plateia vazia e quem toma a decisão mais difícil do filme. Para entender como esse papel se encaixa na trajetória da atriz, de Superbad a Pobres Criaturas, vale conferir nossa seleção com os melhores filmes de Emma Stone.
Plano-sequência, montagem rítmica e a trilha de Justin Hurwitz
La La Land é um filme pensado musicalmente do roteiro à edição. O compositor Justin Hurwitz, colega de Chazelle desde os tempos de Harvard, venceu os Oscars de Trilha Sonora Original e de Canção Original, por “City of Stars”, dividido com a dupla Benj Pasek e Justin Paul, e sua partitura funciona como um sistema de temas que retornam e se transformam ao longo da história.
A ilusão do plano único
O número de abertura parece filmado em um único plano contínuo, com a câmera atravessando faixas, subindo em carros e girando entre dançarinos. Na prática, a sequência foi rodada em poucas tomadas longas, unidas por cortes escondidos em movimentos rápidos de câmera. O efeito, porém, é o de um plano-sequência, e é isso que importa: a câmera dança junto com o elenco, em vez de apenas registrá-lo. A mesma lógica aparece em “A Lovely Night”, o sapateado de Mia e Sebastian no alto de Griffith Park, filmado durante a curta janela da “hora mágica” do pôr do sol.
Montagem guiada pela música
O montador Tom Cross, também responsável por Whiplash, corta muitas cenas no ritmo da trilha, e não apenas nos números musicais. Os encontros e desencontros do casal acompanham variações do tema de Mia e Sebastian, a melodia que Sebastian toca no restaurante na primeira vez em que os dois se cruzam. Ouvida primeiro como improviso, depois como canção de amor e, por fim, como lamento, ela é o fio condutor emocional do filme. A sequência do Planetário do Observatório Griffith, em que o casal literalmente flutua entre as estrelas, mostra até onde Chazelle está disposto a ir para traduzir sentimento em imagem.
As homenagens aos clássicos
O filme é uma carta de amor ao gênero. A coreografia nos postes de luz e o sapateado remetem a Cantando na Chuva (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen. A sessão de Juventude Transviada no cinema Rialto e a visita ao observatório onde o filme de Nicholas Ray foi rodado reforçam a cinefilia de Chazelle. Mas a referência mais decisiva é Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy: um musical inteiramente cantado, de cores vibrantes, sobre um casal separado pelas circunstâncias que se reencontra anos depois, já com outras vidas. É de Demy que La La Land herda sua coragem melancólica.
Final de La La Land explicado: o “e se?” do epílogo
Aviso de spoilers: esta seção analisa em detalhes o desfecho do filme. Se você ainda não assistiu, pule para a seção seguinte.
O último capítulo salta cinco anos no tempo. Mia é agora uma estrela de cinema, casada com outro homem e mãe de uma menina. Numa noite em que o trânsito os obriga a sair da autoestrada, ela e o marido entram num clube de jazz escondido. A placa diz “Seb’s”, o nome que a própria Mia sugeriu a Sebastian anos antes. Ele está no palco, vê Mia na plateia e, depois de um silêncio, senta ao piano e toca o tema dos dois.
A vida que não aconteceu
O que se segue é um epílogo de cerca de oito minutos, sem diálogos, em que o filme reconstrói toda a história como ela poderia ter sido. No primeiro encontro, Sebastian beija Mia em vez de ignorá-la. Ele recusa a turnê com a banda de Keith e a acompanha a Paris. Os dois constroem juntos a carreira dela, têm um filho e, no fim da fantasia, entram juntos no mesmo clube de jazz, como um casal que assiste a outro pianista. Tudo filmado com os cenários pintados, a artificialidade assumida e a exuberância de um musical clássico da MGM.
A sequência é uma homenagem direta aos grandes balés oníricos dos musicais dos anos 1950, como o de Sinfonia de Paris, e ao desfecho de Os Guarda-Chuvas do Amor. Mas a função dela é cruel: mostrar ao espectador, e aos próprios personagens, o final feliz de Hollywood que o filme se recusa a entregar.
Amor ou realização profissional?
A música termina, a fantasia se desfaz e Mia se levanta para ir embora. Na porta, ela olha para trás. Sebastian a encara, os dois trocam um sorriso discreto, e ele faz um aceno quase imperceptível antes de voltar ao piano. Não há rancor nesse olhar, e é isso que torna o final tão devastador.
A leitura mais comum é que La La Land apresenta uma escolha entre amor e carreira, mas o filme é mais sutil do que isso. Mia e Sebastian conquistaram exatamente o que sonhavam, e em grande parte graças um ao outro: foi Sebastian quem a convenceu a ir ao teste decisivo, e foi Mia quem o lembrou de que o clube de jazz era o sonho que valia perseguir. O relacionamento não fracassou; ele cumpriu uma função na vida de cada um. O sorriso final é o reconhecimento disso, uma gratidão misturada com luto pelo caminho não tomado.
É aqui que o título brasileiro ganha seu sentido mais pleno. As estações passam, e o filme sugere que alguns amores existem para nos levar até onde precisávamos chegar, e não para durar para sempre. O epílogo não pergunta se eles fizeram a escolha certa. Pergunta se é possível ser grato por algo que também nos partiu o coração.
Onde assistir La La Land no Brasil
La La Land: Cantando Estações chegou aos cinemas brasileiros em janeiro de 2017 e, desde então, passou por diferentes catálogos de streaming no país, com passagens por serviços como Netflix e Prime Video. Como os contratos de licenciamento mudam com frequência, o mais seguro é conferir a disponibilidade atual no JustWatch antes de dar o play. O filme também costuma estar disponível para aluguel e compra digital em lojas como Apple TV, Google Play e a loja do Prime Video.
Ficha técnica
- Título original: La La Land
- Ano: 2016
- Direção e roteiro: Damien Chazelle
- Elenco principal: Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, Rosemarie DeWitt e J.K. Simmons
- Fotografia: Linus Sandgren
- Montagem: Tom Cross
- Trilha sonora: Justin Hurwitz
- Produtora e distribuidora: Summit Entertainment / Lionsgate
- Duração: 128 minutos
- Gênero: musical, romance, drama
- País: Estados Unidos
Veredito
La La Land é um musical que entende o próprio gênero melhor do que a maioria dos filmes que o imitam. Chazelle usa a nostalgia não como refúgio, mas como contraste: quanto mais encantadoras são as cores, os sapateados e as canções, mais dói o reconhecimento de que a vida real não termina com um beijo diante de um cenário pintado. Com uma atuação luminosa de Emma Stone, a química sem esforço com Ryan Gosling e uma trilha que gruda na memória, o filme se firma como um dos grandes musicais do século, e como lembrança de que sonhar sempre cobra um preço, mesmo quando o sonho dá certo.
Fontes
- Lionsgate / Summit Entertainment. La La Land. Página oficial do filme. Disponível em: lionsgate.com/movies/la-la-land.
- IMDb. La La Land (2016). Ficha técnica completa, elenco e premiações. Disponível em: imdb.com/title/tt3783958.
- Rotten Tomatoes. La La Land. Consolidação da recepção crítica. Disponível em: rottentomatoes.com/m/la_la_land.
- JustWatch Brasil. Consulta de disponibilidade em streaming no Brasil. Disponível em: justwatch.com/br.

Desenvolvedor e especialista em SEO, é o fundador do Arte Com Pipoca e um nerd consumidor compulsivo de informação e cultura. Atua na internet desde 2010.
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Ficha técnica

- Título original
- La La Land
- Ano
- 2016
- Direção
- Damien Chazelle
- Elenco
- Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, Rosemarie DeWitt
- Duração
- 2h 8min
- País
- Estados Unidos
