
Ainda Estou Aqui
Por Senna Ricarte3 min de leitura
Nota: 8/10
Sinopse
Rio de Janeiro, 1970. Eunice Paiva e o marido, o ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva, tentam levar uma vida normal com os cinco filhos em plena ditadura militar. Quando Rubens é levado de casa por agentes do regime e não volta mais, Eunice precisa reinventar a própria vida enquanto luta para descobrir o que aconteceu com ele.
Há filmes sobre a ditadura militar brasileira que mostram a tortura, os porões e a violência explícita do regime. “Ainda Estou Aqui” escolhe outro caminho, e é nessa escolha que está a sua força. Baseado no livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva, o filme de Walter Salles não é sobre o que aconteceu com Rubens Paiva depois que ele foi levado de casa. É sobre o que aconteceu com quem ficou.
A ausência como personagem
O que mais me marcou é o quanto a ausência de Rubens Paiva está presente durante todo o filme. Ele sai de cena cedo, mas nunca deixa a história. Está na rotina da casa, na espera da família e em cada decisão que Eunice precisa tomar sozinha. Selton Mello tem pouco tempo de tela, e mesmo assim o personagem pesa em cada cena em que não aparece.
É uma forma inteligente de falar sobre os desaparecidos políticos: não pelo corpo, que nunca foi entregue, mas pelo buraco que ficou. O espectador sente a falta de Rubens do mesmo jeito que a família sente, e é isso que torna o filme tão difícil de esquecer.
Fernanda Torres
Fernanda Torres está simplesmente sensacional, e sem dúvida esta é a melhor atuação da carreira dela no cinema. Sua Eunice é uma mulher que não pode desmoronar na frente dos filhos, e boa parte da interpretação está justamente no que ela segura: a dor aparece nos intervalos, nos olhares, nos gestos contidos de quem precisa seguir em frente enquanto espera uma notícia que não chega.
O reconhecimento veio de todos os lados. Fernanda Torres se tornou a primeira brasileira a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama e foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, numa temporada de premiações que o país acompanhou como se fosse Copa do Mundo.
Fernanda Montenegro
Na parte final, a Eunice idosa é interpretada por Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres, numa passagem de bastão que por si só já emociona. E ela entrega tudo sem precisar falar uma palavra. É uma participação curta, mas que fecha o filme com a força de uma vida inteira de espera.
Vale a pena?
“Ainda Estou Aqui” levou o primeiro Oscar da história do cinema brasileiro, o de Melhor Filme Internacional, e foi também o primeiro filme do país indicado a Melhor Filme. Mais do que os prêmios, o que fica é a forma como ele transforma uma história real e íntima num retrato de uma época que o Brasil ainda precisa encarar. Um filme para ver, e para lembrar.
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Ficha técnica

- Título original
- Ainda Estou Aqui
- Ano
- 2024
- Direção
- Walter Salles
- Elenco
- Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Daniel Dantas, Valentina Herszage, Maria Manoella
- Gênero
- Drama
- Duração
- 2h 15min
- País
- Brasil, França
Prêmios
- Oscar de Melhor Filme Internacional, o primeiro Oscar da história do cinema brasileiro
- Indicações ao Oscar de Melhor Filme (a primeira de um filme brasileiro) e Melhor Atriz (Fernanda Torres)
- Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama (Fernanda Torres), a primeira brasileira a vencer na categoria
- Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza (Murilo Hauser e Heitor Lorega)
Onde assistir
Curiosidades
- O filme adapta o livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens, publicado em 2015. Walter Salles é amigo da família desde a adolescência.
- A casa dos Paiva, que já não existe, foi recriada numa residência alugada na Urca, sem cenário de estúdio. As irmãs de Marcelo enviaram croquis e detalhes da casa original, e móveis e quadros preservados pela família foram usados nas filmagens.
- Na estreia mundial, no Festival de Veneza, o filme foi aplaudido de pé por cerca de dez minutos.
- Fernanda Torres divide a personagem de Eunice com a mãe, Fernanda Montenegro, que interpreta Eunice na fase final da vida.
- A distribuidora lançou o filme oficialmente em uma única sala, em setembro de 2024, e só depois ampliou o lançamento para 765 salas, em novembro. Somadas as bilheterias de 2024 e 2025, foram cerca de 5,7 milhões de espectadores nos cinemas brasileiros.
Fontes: Wikipédia, Universo Retrô, Terra, Jornal de Brasília, Ancine: Informe Anual 2025
