
Crítica: Hereditário (2018) e o horror da herança familiar
Por Senna Ricarte10 min de leitura
Desenvolvedor e especialista em SEO, é o fundador do Arte Com Pipoca e um nerd consumidor compulsivo de informação e cultura. Atua na internet desde 2010.
Nota: 9.5/10
Em janeiro de 2018, uma sessão de meia-noite no Festival de Sundance mudou a conversa sobre o cinema de terror da década. Hereditário, primeiro longa de Ari Aster, saiu de Park City carregando comparações pesadas com O Exorcista e com o horror dos anos 1970, e chegou aos cinemas meses depois já cercado de expectativa. Produzido e distribuído pela A24, o estúdio que àquela altura já tinha lançado A Bruxa e Ao Cair da Noite, o filme custou cerca de US$ 10 milhões e passou dos US$ 80 milhões nas bilheterias mundiais, tornando-se, na época, o maior sucesso comercial da produtora.
Os números, porém, explicam pouco. O que fez de Hereditário uma referência é a recusa em tratar o medo como um mecanismo de sustos. Aster, que também assina o roteiro, filma uma tragédia familiar com o rigor de um drama de câmara e só aos poucos deixa claro que o sobrenatural sempre esteve ali, organizando cada desgraça. É um filme que se assiste duas vezes: a primeira para sobreviver a ele, a segunda para perceber que tudo estava anunciado desde o primeiro plano.
A anatomia do luto: a desintegração da família Graham
A história começa com um obituário. Ellen Leigh, mãe de Annie Graham, morreu, e o velório revela uma relação marcada por distância e ressentimento. Annie é artista e constrói miniaturas de casas e cenas domésticas; o marido, Steve, tenta administrar o equilíbrio da casa; o filho adolescente, Peter, vive anestesiado entre a escola e a maconha; a caçula, Charlie, era a neta mais próxima da avó e carrega um comportamento difícil de decifrar, marcado pelo estalo de língua que se tornaria a assinatura sonora do filme.
O plano de abertura como tese
A primeira imagem já diz o que o filme é. A câmera se aproxima lentamente de uma das maquetes de Annie até que o quarto em miniatura se transforma, sem corte perceptível, no quarto real de Peter. A família Graham está, literalmente, dentro de uma casa de bonecas. Aster estabelece ali a ideia central da obra: essas pessoas não decidem nada. São peças manipuladas por uma força que as observa de fora, e o espectador ocupa justamente esse lugar de quem olha a maquete.
Quando a tragédia vira estrutura
A virada que marca a metade do primeiro ato, um acidente de carro envolvendo Peter e Charlie, é um dos momentos mais brutais do cinema de gênero recente, menos pelo que mostra e mais pelo que se recusa a mostrar. A câmera fica no rosto de Peter, imóvel, incapaz de olhar para trás. A partir dali, o filme deixa de ser sobre a morte de uma avó e passa a ser sobre a impossibilidade de uma família processar a culpa.
É nesse ponto que Hereditário se aproxima da tradição de O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski: o horror nasce da sensação de que o ambiente doméstico, supostamente o mais seguro, está contaminado. Em Polanski, a ameaça vinha dos vizinhos gentis do Dakota; em Aster, vem do próprio sangue. A herança do título é genética, psicológica e, como o filme revelará, também ritualística.
O jantar e o que não se diz
A sequência do jantar em que Annie finalmente explode contra Peter funciona como o centro dramático do filme. Não há elemento sobrenatural algum em cena, e ainda assim é uma das passagens mais aterrorizantes da obra. Aster entende que o luto mal resolvido produz violência verbal tão destrutiva quanto qualquer entidade, e deixa que a cena se estenda até o desconforto. É o terror da família que se odeia em silêncio e, de repente, deixa de silenciar.
A atuação visceral de Toni Collette como Annie Graham
Boa parte da reputação do filme repousa sobre Toni Collette. A atriz australiana, que já tinha uma indicação ao Oscar por O Sexto Sentido, compõe Annie como uma mulher que oscila entre o controle obsessivo e o colapso completo, sem nunca parecer caricatural. A ausência de seu nome entre as indicadas ao Oscar de Melhor Atriz em 2019 virou, desde então, exemplo recorrente do preconceito da Academia contra o terror.
A construção da loucura em camadas
O trabalho de Collette é físico antes de ser verbal. Na cena em que Annie descobre o que aconteceu com Charlie, o grito que ela solta não é de cinema, é um som animal, quase constrangedor de ouvir. Mais adiante, no grupo de apoio ao luto, ela narra o histórico de doença mental da família (a mãe com transtorno dissociativo, o pai que morreu de fome em depressão psicótica, o irmão esquizofrênico que se enforcou acusando a mãe de “colocar pessoas dentro dele”) com uma frieza que revela mais do que qualquer choro.
Essa fala é decisiva porque planta a dúvida que sustenta metade do filme: Annie está sendo vítima de algo sobrenatural ou está repetindo a doença que atravessa sua linhagem? Collette joga com as duas leituras até o último minuto possível, e é essa ambiguidade que impede o espectador de se proteger com a explicação mais confortável.
O rosto como efeito especial
Aster filma Collette frequentemente em planos fechados e longos, quase sem cortes, transformando o rosto da atriz no principal efeito do filme. As contrações faciais, a mandíbula travada e os olhos arregalados durante a sessão espírita com Joan são mais perturbadores que qualquer aparição. Ao lado dela, Alex Wolff entrega um Peter devastado pela culpa, cuja deterioração ganha força justamente por ser contida até o momento em que deixa de ser.
O culto e a simbologia: o papel do Rei Paimon
Na metade final, Hereditário revela que a tragédia dos Graham foi orquestrada. A avó Ellen liderava um culto dedicado a Paimon, um dos oito reis do inferno descritos na Ars Goetia, a primeira parte do grimório do século 17 conhecido como A Chave Menor de Salomão. Na tradição ocultista, Paimon é obediente a Lúcifer, aparece coroado e montado em um dromedário e oferece a quem o invoca conhecimento sobre artes, ciências e segredos, além de riqueza e servos.
As pistas espalhadas pela trama
O roteiro é construído como um quebra-cabeça e recompensa o espectador atento:
- O símbolo no colar de Ellen aparece no velório e se repete em vários pontos: no poste em que ocorre o acidente, no livro de Ellen e nos objetos do culto. É o selo de Paimon.
- As palavras pintadas nas paredes da casa (“Satony”, “Liftoach Pandemonium”, “Zazas”) são fórmulas de invocação ligadas a rituais de conjuração.
- O estalo de língua de Charlie passa a ser ouvido depois da morte dela, indicando que a presença que a habitava continua na casa.
- As figuras ao fundo dos planos, como o vulto nu sorrindo no escuro, aparecem antes de serem reveladas. Muitas só são notadas numa segunda sessão.
- O cartão-postal deixado por Ellen e a “amizade” repentina de Joan, interpretada por Ann Dowd, revelam que Annie foi conduzida passo a passo para dentro do ritual.
Paimon quer um corpo masculino
O detalhe que dá sentido a tudo está no livro que Annie encontra entre os pertences da mãe: Paimon foi invocado em um corpo feminino, o de Charlie, mas exige um hospedeiro masculino para se manifestar plenamente. Por isso a menina “precisava” morrer, e por isso o verdadeiro alvo sempre foi Peter. Ellen, ao que tudo indica, já havia tentado com o próprio filho, o irmão de Annie, e falhado.
É aqui que o filme dialoga com O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Em ambos, uma casa e uma linhagem funcionam como engrenagens de algo maior do que os personagens. Jack Torrance “sempre foi o zelador” do Overlook; Peter sempre foi o receptáculo de Paimon. O horror não está em uma escolha errada, mas na constatação de que não havia escolha.
Explicação do final de Hereditário
Aviso de spoilers: esta seção descreve em detalhes o desfecho do filme. Se você ainda não assistiu, pule para a seção seguinte.
Depois de tentar destruir o caderno de Charlie, Annie percebe que o objeto está ligado a ela, não à filha: quando o atira na lareira, é Steve quem pega fogo e morre diante de Peter. A partir daí, Annie está completamente possuída. Peter acorda na casa em silêncio, é perseguido pela mãe, que flutua pelo sótão e passa a cortar o próprio pescoço com um fio de aço, em um movimento ritual, enquanto membros nus do culto observam.
Desorientado, Peter se joga pela janela do sótão. Seu corpo fica inerte no chão até que uma luz azulada, a mesma que já tinha aparecido em outros momentos, entra nele. Quando ele se levanta e estala a língua, o espectador entende: Paimon finalmente tem o hospedeiro masculino que desejava. Peter já não existe.
A cena final se passa na casa da árvore, transformada em altar. Os corpos decapitados de Annie e de Ellen estão ajoelhados em reverência, e no centro há uma estátua coroada com a cabeça de Charlie. Joan coloca uma coroa em Peter e explica que Charlie agora é ele, que o rei Paimon foi trazido de volta, e os seguidores entoam “Salve, Paimon”. A câmera recua e enquadra a casa da árvore como mais uma das maquetes de Annie, fechando o círculo aberto no plano inicial.
O que o final significa
Lido de forma literal, é a vitória completa do culto: cada morte do filme foi um passo planejado de um ritual que começou antes do nascimento de Peter. Lido de forma simbólica, é a conclusão mais amarga possível sobre herança familiar. Os Graham nunca tiveram autonomia; a doença, a culpa e a violência foram transmitidas de geração em geração até consumir o último membro da família. O tom quase celebratório da trilha de Colin Stetson nos minutos finais torna tudo ainda mais desconfortável: para o culto, aquele é um final feliz.
Onde assistir Hereditário no Brasil
Lançado nos cinemas brasileiros em junho de 2018 pela Diamond Films, Hereditário costuma circular entre os catálogos de assinatura no país, com passagens por serviços como Prime Video e Max ao longo dos últimos anos. Como os contratos de licenciamento mudam com frequência, vale confirmar a disponibilidade atual em um agregador como o JustWatch antes de dar o play. O filme também costuma estar disponível para aluguel e compra digital em lojas como Apple TV, Google Play e a loja do Prime Video.
Se você quer montar uma maratona temática, confira também a nossa seleção de 10 filmes de horror que você não pode perder, que inclui O Bebê de Rosemary e O Iluminado, e a lista de filmes de terror para o Halloween.
Ficha técnica
- Título original: Hereditary
- Ano: 2018
- Direção e roteiro: Ari Aster
- Elenco principal: Toni Collette, Alex Wolff, Milly Shapiro, Gabriel Byrne e Ann Dowd
- Fotografia: Pawel Pogorzelski
- Trilha sonora: Colin Stetson
- Produtora e distribuidora: A24 (Estados Unidos); Diamond Films (Brasil)
- Duração: 127 minutos
- Gênero: terror psicológico, drama
- País: Estados Unidos
Veredito
Hereditário é um raro filme de estreia que já chega com uma gramática própria. Ari Aster usa o terror como lente para examinar o que uma família transmite sem querer: traumas, silêncios, doenças e culpas. Sustentado por uma atuação monumental de Toni Collette e por uma direção que transforma cada enquadramento em pista, o filme continua, quase uma década depois, como uma das obras mais influentes do chamado pós-horror, e como prova de que o medo mais duradouro é aquele que nasce dentro de casa.
Referências
- A24. Hereditary. Página oficial do filme. Disponível em: a24films.com/films/hereditary.
- IMDb. Hereditary (2018). Ficha técnica completa e elenco. Disponível em: imdb.com/title/tt7784604.
- Wikipedia. Hereditary (film). Produção, lançamento e bilheteria. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Hereditary_(film).
- Wikipedia. Paimon. Origem do demônio na Ars Goetia e na Chave Menor de Salomão. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Paimon.
- Rotten Tomatoes. Hereditary. Consolidação da recepção crítica. Disponível em: rottentomatoes.com/m/hereditary.
- JustWatch Brasil. Consulta de disponibilidade em streaming no Brasil. Disponível em: justwatch.com/br.

Desenvolvedor e especialista em SEO, é o fundador do Arte Com Pipoca e um nerd consumidor compulsivo de informação e cultura. Atua na internet desde 2010.
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Ficha técnica

- Título original
- Hereditary
- Ano
- 2018
- Direção
- Ari Aster
- Elenco
- Toni Collette, Alex Wolff, Milly Shapiro, Gabriel Byrne
- Duração
- 2h 7min
- País
- Estados Unidos
