
O Mestre (2012)
Por Ivanildo PereiraAtualizado em 6 min de leitura
Publicado originalmente em 14 de junho de 2013 no Arte Com Pipoca.
Sinopse
Veterano da Segunda Guerra, Freddie Quell volta para casa marcado pelo álcool e pela violência e não consegue se encaixar na sociedade do pós-guerra. Por acaso, ele cruza o caminho de Lancaster Dodd, o carismático líder de um movimento filosófico-religioso chamado "A Causa", que vê algo especial nele e o acolhe entre seus seguidores.
Grandes filmes: O MESTRE (The Master, 2012)
Cotação: ★★★★★ Excelente
TODOS PRECISAMOS DE UM MESTRE
Há algo de errado com Freddie Quell. O cara parece incapaz de funcionar no mundo ou de conviver por muito tempo com as pessoas. Nas cenas iniciais de “O Mestre”, ambientado no pós-Segunda Guerra Mundial, vemos Freddie, junto com seus companheiros da Marinha, de prontidão numa ilha do Pacífico. Os marinheiros constroem uma escultura de mulher com a areia da praia, e Freddie se deita por cima dela e começa a fazer sexo com a escultura. A princípio todos ao seu redor acham graça da situação, mas depois ficam indisfarçavelmente constrangidos. Mais tarde o vemos fazendo uma avaliação psicológica com um médico da Marinha, e descobrimos que o sujeito só pensa em sexo. Ele também gosta de beber e de fabricar as mais estranhas misturas alcoólicas: chega a tomar fluido de um torpedo numa cena e prepara um drink com solvente em outra.
Freddie leva uma existência errante, até que sua vida sofre uma virada em 1950. Completamente bêbado, ele embarca num navio onde está ocorrendo uma celebração. Mais tarde, com o navio em alto mar, conhece Lancaster Dodd, o anfitrião da festa. Dodd se define como “escritor, médico, físico nuclear e filósofo, mas acima de tudo um homem”. Ele é também o fundador de “A Causa”, uma organização religiosa baseada nos seus ensinamentos e que faz uso de uma forma de hipnose para investigar vidas passadas e resolver problemas emocionais – A Causa, aliás, é mais do que ligeiramente inspirada na real e controversa Igreja da Cientologia. Dodd resolve fazer da recuperação de Freddie Quell sua missão, e a convivência entre eles levará o atormentado protagonista a questionar alguns aspectos de seita.
“O Mestre” marca o retorno do cineasta Paul Thomas Anderson após a consagração do seu filme anterior, o magnífico “Sangue Negro” (There Will Be Blood, 2007). Neste novo trabalho ele continua o mesmo estilo desenvolvido em “Sangue Negro”: o clima de estranheza é acentuado pela trilha sonora dissonante de Johnny Greenwood e pelos enquadramentos esquisitos. O cineasta tem interesse em tirar o espectador da sua zona de conforto: cenas importantes são rodadas em closes intensos (como a primeira “sessão” de Freddie), algumas situações são bastante estranhas e a tensão de alguns momentos é levada até o limite (como a briga entre Freddie e o coitado que só queria tirar uma foto). O ponto de vista do cineasta sempre foi diferenciado e incomum, e em “O Mestre” ele cria mais uma história inesquecível com personagens assustadores, marcantes e incrivelmente humanos.
Quell, por exemplo, representa o lado animal do ser humano, algo com que as religiões sempre tiveram dificuldade em lidar. E o personagem é trazido à vida de forma incrível por Joaquin Phoenix, que tem em “O Mestre” a melhor atuação da sua carreira, até o momento. Sua postura encurvada, a sua dicção (ele parece fazer força pra falar às vezes), as caretas – tudo no personagem é feito para deixá-lo incômodo aos olhos do espectador, mas ainda assim Phoenix é estranhamente cativante no papel. Completando o elenco, Philip Seymour Hoffman é extraordinário como Lancaster Dodd, e Amy Adams faz de um pequeno papel algo especial ao interpretar a esposa de Dodd, Peggy – será ela uma força a exercer controle sobre o líder religioso?
O filme nos faz passar tanto tempo ao lado de Freddie Quell que, aos poucos, começamos a nos questionar sobre quem de fato é mais louco: ele ou Dodd? A loucura de Freddie pelo menos é mais autêntica e visível: numa cena emblemática, ele chega a visualizar, num delírio, todas as mulheres à sua volta sem roupa, e acaba sendo levemente reprimido por Peggy. Já Dodd acaba sendo mais perigoso por ter certeza das suas convicções, embora muitas delas não passem de lorotas sem comprovação. A doutrina de A Causa, segundo seu criador, é tão incrível que pode curar certas formas de leucemia – isso é muito mais perigoso que qualquer atitude do perturbado protagonista, e é demonstrado de forma exemplar numa cena de discussão entre Dodd e o convidado de uma festa. Ele também não hesita em levantar a voz quando questionado e parece ter mais em comum com seu errático discípulo do que deixa transparecer inicialmente. Nesse sentido, a visão do filme sobre a religião organizada não é das mais lisonjeiras, e demonstra como ela acaba cegando as pessoas.
E é interessante notar como Freddie, o louco, aos poucos deixa de abraçar os ensinamentos de A Causa. A princípio, ele os aceita porque o longa reconhece a necessidade presente em todos nós de termos um “mestre” em nossas vidas, alguém que nos ensine a viver. Aparentemente, ninguém ensinou Freddie a viver – e há muitos como ele por aí – e numa fase da sua vida ele precisou de alguém para isso. Numa cena magnífica já próximo ao final, Dodd deixa isso claro ao dizer ao seu discípulo: “Se você descobrir um jeito de viver sem servir a um mestre, qualquer mestre, avise ao resto de nós. Você seria o primeiro na história do mundo”. Mesmo assim o protagonista, refletindo a intensa complexidade humana, acaba buscando resolver dentro de si os problemas do passado que ainda o afligem. Freddie é uma daquelas pessoas eternamente perdidas, e não há ensinamento capaz de mudar quem ele é.
Ao se concentrar na relação entre mestre e discípulo, Quell e Dodd, o filme termina sendo uma história de pai e filho, um tema recorrente na filmografia de Paul Thomas Anderson. Nos trabalhos do cineasta, os pais e filhos ora se separam, ora se aproximam. Em “O Mestre” isso também ocorre, mas aqui eles têm a loucura como traço em comum, e um exerce influência sobre o outro. É mais um filme sem igual, difícil e muito estranho, mas que aborda com precisão a eterna busca do ser humano por um sentido para a existência.
À época, o filme já estava disponível em DVD e Blu-ray no Brasil pela Paris Filmes.
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Ficha técnica

- Título original
- The Master
- Ano
- 2012
- Direção
- Paul Thomas Anderson
- Roteiro
- Paul Thomas Anderson
- Elenco
- Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern, Rami Malek, Jesse Plemons
- Gênero
- Drama
- Duração
- 2h 18min
- País
- Estados Unidos
Prêmios
- Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Veneza
- Copa Volpi de Melhor Ator em Veneza, dividida entre Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman
- 3 indicações ao Oscar: Ator (Joaquin Phoenix), Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e Atriz Coadjuvante (Amy Adams)
Onde assistir
Curiosidades
- O líder vivido por Philip Seymour Hoffman foi em parte inspirado em L. Ron Hubbard, fundador da Cientologia, mas Paul Thomas Anderson sempre recusou que o filme fosse tratado como uma biografia dele.
- Foi rodado em película de 65mm, algo que nenhum longa de ficção fazia desde 1996, e ajudou a reacender o interesse pelo cinema analógico.
- Marcou a volta de Joaquin Phoenix aos filmes de ficção depois do falso anúncio de aposentadoria que ele encenou no documentário "I'm Still Here".
- Em Veneza, o júri queria dar ao filme o Leão de Ouro, mas uma regra nova impedia que o vencedor principal também levasse prêmios de direção e atuação. O Leão de Ouro foi para "Pietà", e "O Mestre" ficou com os prêmios de direção e de ator.
Fontes: Wikipédia, Wikipédia (en), Film at Lincoln Center, Cinema e Filosofia
