Arte Com Pipoca
Homem de gorro e barba entre um idoso de óculos e um jovem, em meio a uma multidão de roupas gastas
Divulgação

O Expresso do Amanhã

Por Lexy SoaresAtualizado em 4 min de leitura

Publicado originalmente em 25 de agosto de 2015 no Arte Com Pipoca.

Sinopse

Uma tentativa fracassada de conter o aquecimento global mergulha a Terra numa nova era do gelo. Os últimos sobreviventes vivem num trem que dá voltas sem parar pelo planeta, dividido por classes: a elite nos vagões da frente, os pobres amontoados no fundo. Até que Curtis decide liderar uma revolta rumo à locomotiva.

Um filme que chega aos cinemas brasileiros com um certo atraso, o longa é dirigido por Bong Joon-ho (O Hospedeiro), e, por sua vez, é uma adaptação da HQ “O Perfuraneve”, lançado recentemente por aqui pela Editora Aleph. A história é ambientada em um futuro próximo, onde o que restou da humanidade vive dentro de um imenso trem que percorre todo o planeta de forma ininterrupta. O motivo? Para resolver o problema do aquecimento global, os países se uniram pra liberar na atmosfera um gás que resfriaria o planeta. Mas o gás acabou por trazer uma nova era glacial, acabando com a vida na superfície. Wilford, um industrial “visionário”, dono de uma indústria de trens, construiu o trem que leva as pessoas que restaram nesse passeio sem fim.

Após 17 anos, no interior do trem habita uma nova sociedade, dividida em classes sociais, cada qual vivendo em um dos carros, e separada das outras. As classes altas, dominantes, vivem na ponta do trem. Eles possuem os melhores recursos, e vivem com maior conforto. Como é mencionado em um diálogo, as pessoas da parte de trás demoraram até mesmo a receber alimentação nos primeiros meses de funcionamento do trem. Enquanto os da cauda do trem, quando começaram a receber comida, ela veio na forma de uma barra de “proteicos”, que lembra uma barra de gelatina, e contém os nutrientes necessários para sua subsistência.

Nessa realidade, Curtis Everett (Chris Evans, de Capitão América), um dos habitantes da “cauda” do trem, sente que é hora de fazer algo pra mudar a situação, e trazer melhores condições para os de sua classe, e tomar o controle do trem. Para isso, é preciso que todos os oprimidos se juntem em uma revolução que vai tentando tomar cada carro do trem, até chegar na “máquina”, onde Wilford vive, e controla o trem.

A trama começa quando a revolução planejada por Curtis tem início. Sem grandes explicações de background no início do filme, já somos “jogados” na trama vendo ele comentando com outras pessoas se “a hora é agora”, ou mais tarde. Em poucos minutos de projeção, já vemos a revolta tendo início, com eles tomando carro a carro do trem. Esse modo de iniciar o filme se mostra um acerto, pois além de nos poupar de enfadonhas cenas longas de apresentação de personagens (o que virou padrão hoje em dia…), já nos joga dentro da história, e vamos conhecendo os pormenores desse mundo futuro aos poucos, conforme os personagens vão atravessando o trem. O mesmo sobre o passado e motivações deles. Há alguns fatos sobre a vida de Curtis que só são mostrados nos atos finais, e são tratados como “surpresa” na história do filme, por exemplo.

A forma como o enredo é “costurado”, mostrando os “rebeldes” avançando aos poucos pelo trem, intercalando com pequenas pitadas de informação sobre o funcionamento da sociedade dentro do trem é o que prende a atenção do espectador. Fica parecendo que cada novo carro do trem (e, consequentemente, cada nova informação) seria quase uma “reviravolta” na trama. Vamos tendo as perguntas respondidas aos poucos, mesmo coisas simples do início da história acabam ganhando uma pequena importância para o funcionamento do trem.

Outra característica positiva é a forma como o diretor mostra o lado “caricato” dessa distopia. É normal em histórias do gênero ter um certo exagero na criação e atuação das pessoas em futuros distópicos, e aqui temos uma caracterização que, mesmo pendendo para o absurdo, consegue fazê-lo sem parecer falso, ou humorístico. Mesmo a personagem Mason (Tilda Swinton), uma espécie de capataz que controla as pessoas da cauda como se fossem prisioneiras, e possui um visual e trejeitos cômicos, o faz de forma real e verossímil.

Se o filme possui defeitos, estão no fato de ser uma história sem grandes novidades. Muitos conceitos ali mostrados são velhos conhecidos dos amantes de ficção científica. A grande mudança é a ambientação, dentro do trem. Há alguns clichês nos personagens, com o herói altruísta que parece perfeito, mas com um passado traumático, um velho que serve como mentor espiritual, o encontro com o vilão e as revelações “secretas” sobre o funcionamento desse mundo, etc. Mas são detalhes que não tiram o prazer de ver o filme.

Com todas essas qualidades, e os poucos defeitos, o filme é um programa agradável de se ver, sem pretensões de ser revolucionário no gênero, mas competente em sua proposta.

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Ficha técnica

Título original
설국열차
Ano
2013
Direção
Bong Joon-ho
Roteiro
Kelly Masterson, Bong Joon-ho
Elenco
Chris Evans, Song Kang-ho, Jamie Bell, Alison Pill, John Hurt, Tilda Swinton
Gênero
Suspense, Ficção científica, Ação
Duração
2h 6min
País
Coreia do Sul, Tchéquia, Estados Unidos, França

Onde assistir

Ver onde assistir no JustWatch

Curiosidades

  • O filme adapta a HQ francesa "Le Transperceneige", de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, publicada no Brasil como "O Perfuraneve".
  • Foi o primeiro filme de Bong Joon-ho falado em inglês, anos antes de "Parasita". O projeto contou com a ajuda do cineasta e produtor Park Chan-wook.
  • Harvey Weinstein, dono dos direitos de distribuição nos Estados Unidos, exigiu cortes de cerca de 20 minutos, principalmente de cenas de diálogo, para privilegiar a ação. Bong resistiu, e o filme acabou lançado quase sem cortes, mas em poucas salas.
  • Justamente por ter estreado em circuito reduzido, virou fenômeno no vídeo sob demanda, a ponto de forçar a distribuidora a ampliar o lançamento nos cinemas.

Fontes: Omelete, Plano Crítico, Revista Cinética, Time Out

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