Arte Com Pipoca
Homem de chapéu, curativo no nariz e cigarro na boca ao lado de mulher de chapéu preto, num carro ao entardecer
Divulgação/Paramount Pictures

Chinatown (1974)

Por Ivanildo PereiraAtualizado em 9 min de leitura

Publicado originalmente em 26 de junho de 2014 no Arte Com Pipoca.

Sinopse

Los Angeles, 1937. O detetive particular J.J. Gittes é contratado para investigar um caso de adultério envolvendo o engenheiro-chefe do departamento de águas da cidade. O que parecia rotina se transforma numa trama de corrupção, poder e segredos de família em plena disputa pelo controle da água na Califórnia.

Cinema

Publicado em junho 26th, 2014 | por Ivanildo Pereira

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Grandes filmes: CHINATOWN (1974)

Cotação: ★★★★★ Excelente

O LUGAR ONDE TUDO DÁ ERRADO

“Esqueça, Jake, é Chinatown” se tornou uma das frases mais conhecidas e lembradas do cinema por representar aquele tipo de situação onde tudo dá invariavelmente errado, e nada resta a não ser aceitar. É a última fala dita no filme “Chinatown” e resume o filme, um dos grandes representantes do movimento que se convencionou chamar de “Nova Hollywood”, que revigorou o cinema americano a partir do final dos anos 1960 e por toda a década de 1970. O filme permanece um clássico porque, embora ele contenha elementos de outros filmes, a mistura acabou resultando numa obra única, inesquecível pelo seu pessimismo, pela sua visão crítica da sociedade americana… e também por ser um dos melhores e mais bem urdidos suspenses já produzidos em Hollywood.

Em meados dos anos 1960 Hollywood estava em crise. Os estúdios estavam mal das pernas, os filmes não se comunicavam com o público e, fora algum ocasional sucesso, as bilheterias estavam em baixa. Nesse cenário, um bando de cineastas, produtores e atores, jovens e cheios de energia, começaram a fazer filmes que se voltaram para a contracultura, como “Easy Rider: Sem Destino” (Easy Rider, 1969), ou rompiam tabus, como “Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas” (Bonnie and Clyde, 1967). Foi a época em que surgiram diretores como Robert Altman, William Friedkin, Peter Bogdanovich, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, Hal Ashby, Terrence Malick, George Lucas, Steven Spielberg e Martin Scorsese.

“Chinatown”, por sua vez, foi dirigido por um europeu, o polonês Roman Polanski, que na segunda metade dos anos 1960 era um dos nomes mais quentes do mundo do cinema. “Chinatown” era um projeto do roteirista Robert Towne e do astro Jack Nicholson, e foi o chefão do estúdio Paramount na época, Robert Evans, quem trouxe Polanski para dirigir o filme. O cineasta já havia realizado para a Paramount, anos antes, o sucesso “O Bebê de Rosemary” (Rosemary’s Baby, 1968). Mas Polanski sempre foi um homem marcado pelas tragédias em sua vida. Na infância, perdeu a mãe na Segunda Guerra Mundial – ela foi enviada para o campo de concentração de Auschwitz – e passou fome na Polônia ocupada até reencontrar seu pai após o fim da guerra. Em 1969, quando tudo estava bem na sua carreira, a esposa de Polanski, a atriz Sharon Tate, foi assassinada junto com outros convidados de uma festa pelos seguidores do maníaco Charles Manson. Depois dessa tragédia, Polanski abandonou os Estados Unidos, e só retornou ao país para rodar “Chinatown”.

Na verdade “Chinatown” era um filme revisionista, retomando a velha tradição do filme noir. Esse é o termo que designa um conjunto de filmes americanos produzidos a partir da década de 1940, obras sobre o crime, fotografadas em preto e branco e dominadas pelo cinismo e pela ressaca moral da Segunda Guerra. Eram filmes com detetives durões, investigadores cínicos, mulheres fatais e tramas mirabolantes, e deixaram suas marcas não apenas na filmografia americana, mas também mundial – afinal, vários títulos do cinema noir ainda se situam dentre as melhores obras cinematográficas já produzidas.

A ideia por trás de “Chinatown” era recriar esse tipo de filme, mas não de uma maneira simplesmente referencial. Polanski e Towne queriam recriar o estilo, e depois transcendê-lo. Trata-se de um noir colorido e iluminado pelo sol de Los Angeles, enquanto os antigos eram todos em preto-e-branco. A fotografia iluminada e rica de John A. Alonzo cria um contraste entre a beleza das imagens e a feiura dos acontecimentos da história – além disso, sombras também são usadas em momentos cruciais, assim como nos antigos filmes noir. Além disso, é um filme com uma sensibilidade tipicamente anos 1970 e reflete o cinismo pós-Guerra do Vietnã e as tensões políticas sentidas na época. É um filme sobre como Los Angeles foi construída – com corrupção e assassinatos – e, por conseguinte, os Estados Unidos. E de fato, “Chinatown” acaba sendo a maior recriação moderna do noir – desde então apenas o oscarizado “Los Angeles: Cidade Proibida” (L.A. Confidential, 1997) chegou perto, mas ainda perde em comparação com o filme de Polanski.

A história se passa nos anos 1930 e, como de praxe nos filmes noir, começa com uma mulher contratando um detetive para uma investigação. J. J. Gittes (interpretado por Nicholson) é contratado para seguir Hollis Mulwray (Darrell Zwerling), o chefe da companhia de Águas e Energia de Los Angeles, pois a sua esposa suspeita de traição. Não demora muito e Mulwray é encontrado morto, e Gittes conhece a verdadeira esposa dele, Evelyn (Faye Dunaway). Mas ela não é a mesma mulher que o contratou, e o detetive logo se vê metido numa trama que envolve o abastecimento de água para a cidade, um negócio milionário no qual pode estar envolvido o misterioso Noah Cross (John Huston). Ah, além disso, Evelyn é uma mulher que esconde um terrível segredo…

Polanski inicia o filme pelo ponto de vista de um cliente de Gittes enquanto este vê fotos em preto-e-branco da sua esposa transando com outro sujeito. Ao passar para o universo colorido do filme, é como se “Chinatown” deixasse para trás as restrições dos filmes noir – na época em que foram produzidos, seus realizadores enfrentavam o controle do Código Hays, o escritório da censura cujas diretrizes diziam o que podia ou não ser mostrado no cinema americano. Os cineastas responsáveis pelos filmes noir tinham de inventar modos criativos para fazer o público intuir os momentos de sexo e violência inerentes às suas histórias, mas que não podiam ser explicitamente mostrados.

“Chinatown” não teve esse problema, e como tal, não se acanha em deixar claras a violência e a sexualidade da história – aliás, o verdadeiro mistério da trama envolve um tabu sexual cuja força não diminuiu com o tempo e permanece chocante ainda hoje. Porém, é interessante notar como o filme subverte as expectativas do noir. A trama é complexa, mas Polanski – que trabalhou junto a Towne para cortar alguns excessos do roteiro e torná-lo mais compreensível – tem total controle sobre ela e não deixa o espectador se perder. Além disso, usa o humor para tornar interessantes momentos de exposição, como quando Gittes irrita a secretária de um personagem ou na cena do cartório. É também um filme no qual não se pode confiar nas aparências. Evelyn, embora a princípio aparente ser a típica femme fatale do noir, acaba se revelando ao longo da história como a verdadeira heroína.

A atuação nervosa de Faye Dunaway – que, segundo relatos, teve conflitos com o diretor – torna a personagem marcante e inesquecível. Já Nicholson estava, nessa época, no auge do seu charme e carisma de astro, e conduz a narrativa com facilidade. E na melhor tradição dos temas de Polanski, Gittes é um herói perdido em meio a um mundo hostil. Ele pensa que sabe muito, e isso acaba sendo a sua ruína. Outros destaques do elenco são o próprio Roman Polanski, no papel do bandido que corta o nariz de Gittes, e o diretor John Huston, realizador de um dos maiores filmes noir de todos os tempos, “O Falcão Maltês: Relíquia Macabra” (The Maltese Falcon, 1941). Huston faz de Noah Cross um dos maiores vilões da história do cinema. A sua dicção, sua linguagem corporal e algumas das suas falas o transformam numa figura de pesadelo, especialmente no final do filme.

Por exemplo, Cross diz que, “dependendo das circunstâncias, as pessoas são capazes de tudo”. Isso fica claro no inesquecível e sombrio final, idealizado por Polanski – o diretor teve de bater o pé junto a Evans e Towne para manter o final. É como se, no desfecho de “Chinatown”, Polanski deixasse clara a sua visão do país onde ele experimentou uma das maiores tragédias da sua vida. Sua visão fatalista é que torna o filme difícil de esquecer: será que alguém se lembraria de “Chinatown”, 40 anos depois, se um final feliz artificial tivesse sido inserido à força na história? Nos velhos filmes noir, apesar de todo o cinismo, na maioria das vezes aqueles do lado errado da lei terminavam sendo punidos. Em “Chinatown” não: Polanski e Towne levaram o estilo à sua conclusão lógica, a qual ela nem sempre podia chegar antes.

O desfecho de “Chinatown” é como a representação cinematográfica da Lei de Murphy: o que pode dar errado, dá. Mas colocar o seu niilismo apenas na conta das tragédias da vida de Roman Polanski reduz o filme, e ele não pode ser reduzido. Acima de tudo, é espantoso como o diretor fez desse filme algo também muito divertido e envolvente. É muito difícil largar “Chinatown” depois que se começa a assisti-lo, e sua trama e seus mistérios continuam entretendo e fascinando espectadores. É um filme de contrastes: beleza e feiura, glamour e baixeza, estilização e realidade. E repleto de detalhes e de falas memoráveis – alguns diálogos de Gittes fazem o público rir com facilidade. Talvez daí venha o seu encanto: muito sombrio e muito divertido, “Chinatown” parece uma daquelas mulheres fatais do cinema noir, bonita, sensual e irresistível, mas escondendo a promessa de algo terrível dentro de si.

Tags: Faye Dunaway, Grandes filmes, Jack Nicholson, Roman Polanski

About the Author

Ivanildo Pereira Me formei em Ciências Biológicas mas o amor pelo cinema e pela arte falou mais alto. Depois estudei Jornalismo, tendo me formado em 2013 e escrevo sobre cinema desde 2010, após ter feito o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são meus maiores interesses…

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Ficha técnica

Título original
Chinatown
Ano
1974
Direção
Roman Polanski
Roteiro
Robert Towne, Roman Polanski
Elenco
Jack Nicholson, John Huston, Faye Dunaway, John Hillerman, Diane Ladd, Roman Polanski
Gênero
Mistério, Drama
Duração
2h 11min
País
Estados Unidos

Prêmios

  • Oscar de Melhor Roteiro Original (Robert Towne), entre 11 indicações
  • Globo de Ouro de Melhor Filme Drama, Direção, Ator Drama (Jack Nicholson) e Roteiro
  • BAFTA de Direção e Ator (Jack Nicholson)

Onde assistir

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Curiosidades

  • O roteiro se inspira nas "guerras da água" da Califórnia, disputas reais do início do século 20 pelo abastecimento de Los Angeles.
  • Robert Towne escreveu o detetive Gittes pensando na personalidade do amigo Jack Nicholson, com sua mistura de cinismo e charme.
  • O próprio Roman Polanski aparece no filme: é o capanga que corta o nariz de Gittes com um canivete.
  • Polanski mudou o final escrito por Towne para uma versão mais sombria. O roteirista resistiu, mas anos depois admitiu que o diretor tinha razão.
  • Towne planejava uma trilogia com o detetive. A continuação, "A Chave do Enigma" (1990), foi dirigida por Nicholson, e o fracasso dela enterrou a terceira parte.

Fontes: Wikipédia, TCM, Cinem(ação), AdoroCinema

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