Arte Com Pipoca
Batman de armadura metálica encara Superman de perfil sob chuva intensa, mão no peito do herói
Divulgação/Warner Bros.

O problema com os heróis em Batman vs. Superman

Por Ivanildo PereiraAtualizado em 9 min de leitura

Publicado originalmente em 7 de abril de 2016 no Arte Com Pipoca.

Não gostei de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça**. O filme não me agradou por vários motivos, mas neste texto, quero falar especificamente sobre a forma como os dois grandes heróis do Universo DC são caracterizados no longa de Zack Snyder. Aviso: SPOILERS no texto abaixo, tanto de Batman vs. Superman quanto de O Homem de Aço (2013).

Vamos começar pelo Superman.

As principais características do Superman neste novo filme são herdadas do também problemático O Homem de Aço. Naquele filme, também dirigido por Snyder, o Superman era mostrado como em início de carreira, mas isso não necessariamente serve como desculpa para tudo. A batalha final da trama, na qual o herói e o vilão General Zod destruíram grande parte da cidade de Metrópolis, causou polêmica entre os espectadores porque mostrou o Superman como, em grande parte, responsável por essa destruição. E ao final do filme, o herói matava o vilão para salvar uma família em perigo mais imediato.

Não me oponho com o fato de o Superman matar. Oponho-me ao fato dessa morte não ter tido consequências dramáticas, tanto em Homem de Aço quanto no novo filme. O maior problema da morte de Zod em Homem de Aço é que o filme não fez jus àquele momento: pareceu arbitrário o fato de, só naquele momento, o Superman ter se preocupado em matar seu inimigo, depois de ambos terem devastado a cidade, apenas porque viu uma família em apuros. Ainda no fim do longa de 2013, pouco após a morte de Zod, o Superman surgia em frente ao exército americano e basicamente ressaltava a sua independência: “Sou um rapaz do Kansas e vou ajudar, mas será nos meus termos”. É uma declaração válida, mas que carrega sem dúvida uma conotação negativa após vermos o personagem cometendo assassinato.

Lembro-me de quando o Homem de Aço matou alguns criminosos kryptonianos nas HQs dos anos 1980 – na fase do John Byrne, pós-Crise – e ficou tão devastado que se exilou da Terra. Outros tempos… Repito: Não é inerentemente ruim o fato de o herói matar, mas isso deve ser levado a sério, ter repercussões importantes, seja para a história ou para o personagem.

E quando Batman vs. Superman começa, também não vemos grandes consequências daquela morte sobre o personagem. Nem um pouco de remorso. Basicamente, o esforço do Superman para ser aceito no filme só dá errado, por culpa dele mesmo, da montagem confusa do filme – sério, o que exatamente aconteceu na África? – e das artimanhas de Lex Luthor e seu bombardeio da comissão do Senado. Então o Superman chuta o balde e diz que “ninguém permanece bom neste mundo” enquanto o seu intérprete, o ator Henry Cavill, faz a maior cara de cachorrinho triste de que é capaz. Dá a impressão de ser um menino mimado, revoltado por não reconhecerem o quão sensacional ele é.

É um retrato muito cínico e sombrio do personagem, que vai de encontro à ideia básica do Superman. Vale relembrar que o personagem, o primeiro super-herói de fato das HQs, foi criado pelos jovens Joe Shuster e Jerry Siegel numa época bastante complicada (como hoje). Em 1938, ano da primeira aparição do Superman na Action Comics n°. 1, o mundo estava prestes a entrar novamente numa guerra mundial e os Estados Unidos em breve participariam também. Shuster e Siegel haviam crescido em meio à Grande Depressão e conheciam a pobreza e a falta de esperança. Talvez por isso mesmo, criaram uma figura que deveria ser uma representação da esperança, maior que a vida, superpoderosa e capaz de influenciar outros seres humanos a fazer o bem. Era uma representação dos ideais de Verdade, Justiça e do “American Way” numa época em que o país precisava disso. O mundo era sombrio, repleto de bandidos, guerras e desigualdade social, mas o Superman, dentro dele, sempre sabia o que fazer. Essas são lições muito importantes de se transmitir, especialmente às crianças – e não nos esqueçamos de que os quadrinhos de super-heróis costumavam ser direcionados a elas. Hoje em dia, não necessariamente.

No filme de Snyder, Lois Lane diz ao Superman que o “S” do seu peito significa esperança, mas é difícil ver essa versão do personagem por esse ângulo. Afinal, imagine por um momento uma pessoa comum dentro daquele universo do filme: para essa pessoa, o kryptoniano é causador de destruição e mortes. E esse medo até torna justificada a paranoia do Batman a respeito dele. Pena que a caracterização do Batman também seja problemática.

Sim, também vou tocar no mesmo tema delicado: no filme de Snyder o Homem-Morcego é visto matando muitos bandidos, alguns de forma indireta, outros mais diretamente. É mais aceitável ver o Batman matando que o Superman – e, de novo, não me oponho a isso se fizer parte orgânica da história ou se for trabalhado pelo roteiro – mas para mim, fazer o Batman matar é uma decisão problemática por dois motivos. Primeiro, porque transforma definitivamente o personagem numa fantasia fascista e direitista, a versão HQ dos filmes Desejo de Matar com Charles Bronson. De vez em quando aparece alguém para denegrir o Batman referindo-se a ele como “personagem de extrema-direita” – não sei vocês, mas odeio quando leio ou vejo isso. Se ele mata, essa acusação se torna indefensável e ainda adiciona mais um componente nefasto ao personagem. Não esqueçamos de que Bruce Wayne é um ricaço, membro do “1%”. Ao embarcar nessa caracterização, ele enfim se reduz a um cara rico que busca satisfação pessoal batendo e matando bandidos, em sua maioria, pobres – É esse o herói para o qual vocês REALMENTE querem torcer?

Alguns podem argumentar: “Mas o Batman matou nas HQs!”. “Na sua primeira historinha, vemos o Batman jogando um bandido do alto de um prédio!”. “O Batman do Cavaleiro das Trevas do Frank Miller matava!”. Sim, tudo isso é verdade. Mas retruco: Tudo que aconteceu em quase 80 anos de quadrinhos foi bom? Foram todas boas ideias? O que houve em 1939 é válido que se repita em 2016? Além disso, em O Cavaleiro das Trevas*,* influência tão forte no filme de Snyder, Miller desconstrói a figura do Batman, levando-o ao extremo de uma caracterização fascista e violenta. É estranho querer usar a desconstrução de um personagem como base para um universo cinematográfico, mas, enfim… E mesmo assim, ao final da minissérie ele se transforma, vira o “símbolo”, aquele tão importante para a trilogia de Christopher Nolan no cinema. E o símbolo transcende o fascismo, aponta para algo positivo.

Isso não ocorre no filme de Snyder, e ouvir sair da boca de Bruce Wayne a frase “Se houver 1% de chance de ele ser nosso inimigo, precisamos tomar isso como certeza absoluta” é deprimente. Aliás, essa frase remete a um comentário do ex-secretário de defesa americano Dick Cheney, aquele que convenceu o país a ir para a recente Guerra do Iraque. Ele disse, ao ler um relatório da espionagem americana: “Se houver 1% de chance dos cientistas paquistaneses ajudarem a Al Qaeda a adquirir uma bomba atômica, devemos tratá-la como certeza em termos da nossa resposta”. É dose ouvir isso sendo referenciado pelo meu herói favorito. E não se enganem, Batman nos quadrinhos sempre foi chamado e caracterizado de “herói”, não de “anti-herói” – se eu quiser ler um anti-herói vou ler o Justiceiro da Marvel.

E o outro motivo pelo qual é problemático mostrar o Batman matando é basicamente narrativo: Se ele mata, como explicar a sua galeria de vilões? Como explicar a existência de um Coringa no vindouro Esquadrão Suicida – e o Batman participa do filme – neste universo? Afinal, o Coringa deveria ser o primeiro a ter sido morto pelo Homem-Morcego. Mesmo que Esquadrão se passe antes de Batman VS Superman, isso ainda não elimina o problema: Daqui para a frente, todo filme com o Batman do Ben Affleck vai precisar explicar ou arranjar alguma desculpa para o fato de ele não matar os vilões principais. Sim, porque duvido muito que Jared Leto tenha contrato só para um filme como Coringa. Ou esse Batman só mata capangas, e deixa os peixes grandes viverem? Percebem como abrir essa porta é uma decisão narrativa ruim?

Assim como o Superman, este Batman é também uma visão muito cínica do mito da DC Comics. Tudo isso soa mais como tentativa de se diferenciar dos filmes do Marvel Studios. É como se Snyder e seus roteiristas dissessem: “Viram, pessoal? Nossos heróis são mais irados, eles matam!”. Realmente precisamos, no mundo de hoje, no qual não faltam pessoas babacas e ruins, que os dois maiores heróis do panteão DC – e os mais famosos super-heróis do mundo – também sejam babacas e ruins? Os mitos do passado estão reduzidos a isso, hoje, em nome de uma pretensa “seriedade” e de uma “visão sombria” que não necessariamente se aplica a todos os personagens, a todas as HQs? A concorrência mostra que não precisa ser assim: o Marvel Studios conseguiu fazer funcionar o Capitão América, um personagem tão certinho quanto o Superman. Não apenas isso: o segundo longa do herói, Soldado Invernal (2014), hoje em dia é considerado pela maioria dos fãs e críticos como a melhor produção que o estúdio lançou até agora. E os cineastas o fizeram sem desvirtuar os valores e ideais do herói.

Compreendo que, quando se trata de Superman e Batman, dois personagens com quase 80 anos de história e que foram reinterpretados diversas vezes ao longo das décadas em diferentes mídias, tudo é possível. Mas por que escolher duas caracterizações tão nocivas dentro de uma história tão importante, o aguardado encontro entre os dois nas telas? Em minha opinião, se os filmes de hoje não conseguem mais mostrar o Superman como farol de esperança e o Batman como um símbolo capaz de inspirar, além de causar medo, então eu manterei uma distância segura deste Universo DC no cinema, como um daqueles velhinhos que reclama que “o mundo está perdido mesmo”. Neste caso, prefiro ficar mesmo com meus heróis de papel e com alguns dos filmes protagonizados por eles, mas não esse.

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