Arte Com Pipoca
Furiosa de olhar intenso e Max com máscara metálica em primeiro plano, sob céu alaranjado e turquesa
Divulgação/Warner Bros.

Mad Max no Oscar e o velho debate arte vs. entretenimento

Por Ivanildo PereiraAtualizado em 10 min de leitura

Publicado originalmente em 7 de janeiro de 2016 no Arte Com Pipoca.

Caso não aconteça nenhuma surpresa, em 14 de janeiro de 2016, quando forem anunciados os indicados ao Oscar, Mad Max: Estrada da Fúria estará entre os 10 (ou 9, ou 8) disputando a categoria de Melhor Filme. Será a culminação de um processo de quinze anos para o seu diretor, o maluco australiano de 70 anos George Miller. O filme é, tecnicamente, continuação da trilogia Mad Max*,* estrelada por Mel Gibson – um marco do cinema de ação dirigido pelo próprio Miller nos anos 1980.

O filme foi um sucesso entre os críticos quando foi lançado em maio de 2015. A arrecadação nas bilheterias não foi muito impressionante – Mad Max não fez nem de longe um sucesso comparável a, por exemplo, Os Vingadores: A Era de Ultron ou Velozes e Furiosos 7*,* que foram lançados mais ou menos na mesma época. No entanto, a reputação do filme só cresceu desde o lançamento, a ponto de ele ter ganhado vários prêmios importantes – como o de Melhor Filme do ano pelo National Board of Review e da Online Film Critics Society, entre outras associações – e ter aparecido nas listas de melhores do ano de grandes revistas de cinema, como a da Sight and Sound e da Cahiers du Cinéma. Além, claro, de estar disputando o Globo de Ouro na categoria Melhor Filme Drama, e ter Miller entre os indicados a Melhor Diretor.

Ou seja, desde o final de 2015 um blockbuster, um filme de ação, cheio de explosões e batidas de carro, e com uma trama absurdamente simples, começou a ganhar vários prêmios importantes do mundo do cinema, a ponto de chegar com força e respeito na premiação do Oscar. E de forma completamente merecida. Aliás, vale lembrar que há alguns anos a Academia aumentou o número de indicados a Melhor Filme justamente para tentar reconhecer os filmes mais populares – e, claro, combater a queda de audiência da cerimônia do Oscar.

Como um fato como esse é um pouco raro, aproveito para mandar meus dois centavos sobre o velho debate cinematográfico, a eterna luta entre arte e entretenimento.

Para começar, já quero deixar um ponto claro: acredito que todo filme é arte e ponto final. Todo filme é “de arte”. Velozes e Furiosos é tão arte quanto um pequeno filme iraniano filmado no fundo do quintal do seu diretor e estrelado por seus filhos pequenos. Podemos discutir se Velozes e Furiosos (ou qualquer outro exemplo de grande blockbuster popular) é BOA arte ou MÁ arte. Mas, em minha opinião, não se pode duvidar da essência artística de qualquer obra cinematográfica, independente do fato de o seu propósito final ser meramente comercial.

Essa relação dicotômica entre arte e diversão, e mais tarde entre prestígio e comércio, está presente no cinema praticamente desde os seus primórdios.

O cineasta russo Sergei Eisenstein disse que o “cinema é a síntese de todas as artes”, mas obviamente essa concepção nem sempre existiu. O cinema nasceu mesmo como uma curiosidade, algo que era exibido em feiras e parques de diversão no final do século XIX e começo do século XX. As pessoas se aglomeravam para ver um fragmento da realidade, ou uma cena engraçadinha, projetada num pano. Nada era sofisticado, e era uma forma de entretenimento absolutamente popular. E é curioso notar como se evoluiu pouco e essa percepção permanece viva mais de um século depois. Na mente da maioria dos espectadores de hoje persiste essa visão do cinema apenas como diversão, um programa a mais para se fazer quando se passeia no shopping, por exemplo.

Enfim, o cinema não nasceu como arte, mas já nasceu com o seu poder lúdico. Só alguns anos mais tarde é que a linguagem do cinema foi se desenvolvendo, graças principalmente aos trabalhos do americano D. W. Griffith e dos russos, como Eisenstein e Dziga Vertov, diretor de Um Homem com uma Câmera (1929), entre outros. De repente, as pessoas que trabalhavam com filmes perceberam o poder do corte, e como a montagem de sucessivos cortes em determinada ordem poderia ajudar a contar uma história ou criar um estado emocional na plateia.

Foi por essa época também que os estudos sobre cinema começaram a surgir, numa tentativa de sistematizar a linguagem. Ora, se possui uma linguagem, se pode ser usado com pretensões narrativas (como um livro), e se provoca uma experiência emocional e estética no receptor (como uma música ou uma pintura), então pode ser considerado arte. Nasceu a noção do cinema como a “sétima arte” e com o passar das décadas surgiu o termo “filme de arte”.

Segundo a definição em inglês do dicionário de Oxford, o filme de arte é “o filme feito principalmente por razões estéticas e não comerciais, geralmente de natureza experimental e com conteúdo não-convencional e altamente simbólico, voltado para uma audiência limitada”. Essa é a ideia presente na mente da maioria dos espectadores e de críticos também, mas mesmo entre esses últimos, no fim das contas, há espaço para discussão. É interessante relacionar as opiniões de dois dos maiores críticos de cinema de todos os tempos, os americanos David Bordwell e Pauline Kael.

Bordwell chega a descrever o filme de arte como um gênero, “com suas próprias convenções”. É o que vemos em muitos trabalhos hoje: elementos que deveriam legitimar o filme acabam parecendo como “cacoetes” típicos do filme de arte, aquele “feito para passar em festivais”. Exemplos claros nestes últimos anos são os recentes trabalhos do diretor Francis Ford Coppola, como Velha Juventude (2007) e Virgínia (2011), autorais, experimentais e que se encaixam perfeitamente na definição do dicionário – curiosamente, nenhum desses filmes mais recentes de Coppola chegam perto, em impacto e qualidade, do filme que ele fez por dinheiro, um pequeno filme de máfia chamado O Poderoso Chefão (1972)…

Qualquer espectador já viu um destes, um daqueles filmes elogiados ou premiados, mas não passam de estilo sobre substância e deixam uma sensação de vazio ao ser visto. Mesmo assim, apenas pelo verniz de arte, eles têm mais crédito entre os cinéfilos e a crítica do que a maioria dos filmes hollywoodianos, embora sejam tão cheios de clichês quanto estes.

Ora, por que algumas pessoas que levam o cinema a sério se mostram animadas para ver algo como A Teoria de Tudo (2015) e desprezam, por exemplo, um filme do Bruce Lee dos anos 1970? Ambos os filmes seguem convenções consagradas, o primeiro dos filmes “biográficos” que se tornam tão comuns na época do Oscar, enquanto o outro segue o dos filmes de artes marciais e de ação. As propostas são diferentes – um filme só quer entreter, o outro quer contar uma história edificante de forma convencionalmente bela – mas desconfio que apenas um deles alcance seu objetivo, e não é o filme que deu o Oscar ao Eddie Redmayne.

Já a sempre polêmica Pauline Kael um dia proferiu a seguinte frase: “Filmes que atingem o estado de grande arte são tão raros que se não pudermos apreciar um bom lixo, então teríamos poucas razões para nos interessarmos por eles”. Não sei se concordo inteiramente com esse pensamento, mas sem dúvida a provocação de Kael permanece com mérito: muitas vezes nós, os espectadores (e me incluo nisso), valorizamos o que parece bom à primeira vista, o de “bom gosto”, e desprezamos o que parece ruim, também à primeira vista. Não nos ocorre a ideia de que o de bom gosto pode ser clichê e sem profundidade, enquanto o de mau gosto pode surpreender. Claro, essa surpresa muitas vezes não chega, mas por que a tratamos como algo impossível? Algumas das experiências mais recompensadoras da minha vida de cinéfilo, e que me transformaram num, vieram dos filmes dos gêneros mais desprezados: o filme de ação, de terror, de suspense, o western.

Na verdade, a maioria dos filmes (bem, a maior parte do entretenimento popular) é, sinceramente, lixo, efêmero e descartável. Mas de vez em quando algo de bom surge em meio a esse turbilhão, e se não prestarmos atenção por causa de uma visão bitolada, podemos perder obras de arte interessantes e vibrantes.

No fim, tudo se resume ao velho problema do preconceito, que pode embotar a percepção artística e a apreciação do cinema. E quem decide o que é bom e o que é ruim? Ultimamente, mais vezes do que se imagina, são os departamentos de marketing dos estúdios.

George Miller: Audácia e ousadia visual

Então, de vez em quando surge um trabalho que mescla perfeitamente a visão artística de um cineasta com a capacidade para entreter. Mad Max: Estrada da Fúria é o melhor filme a fazer isto em muito tempo.

Foi por volta do começo da década passada que George Miller teve a ideia para o novo Mad Max. Ao invés de escrever um roteiro, chamou dois artistas e desenhou o filme todo em storyboards fixados em murais. Ou seja, desde o princípio Estrada da Fúria foi pensado para ser eminentemente visual, com Miller sendo influenciado por ídolos do cinema mudo como Buster Keaton e Harold Lloyd, segundo suas próprias palavras. E como na sua clássica trilogia, ele queria fazer as cenas de ação de verdade, recorrendo o mínimo possível a efeitos de computador – e conseguiu.

Foram 15 anos da ideia original para o lançamento, com a produção sendo adiada diversas vezes por problemas e mudanças climáticas – o deserto original dos velhos Mad Max na Austrália foi tomado pelo verde, então Miller teve de mudar as filmagens para a Namíbia, na África, não exatamente uma locação hospitaleira. E no meio do caminho Mel Gibson enlouqueceu de verdade, com o diretor sendo obrigado a trazer um novo ator para viver o herói, Tom Hardy.

Tudo isso para ressaltar que a existência de Estrada da Fúria não foi motivada por dinheiro simplesmente. Afinal, ninguém estava batendo na porta do cineasta cobrando por um novo Mad Max – a franquia já parecia encerrada. Ele fez principalmente porque quis, porque não desistiu e acreditou na sua visão artística e na história, que só ganhou novas ressonâncias desde a sua concepção. No mundo de hoje, a história de uma mulher – a impressionante Furiosa, vivida por Charlize Theron – lutando para libertar suas companheiras da tirania masculina, e no fim das contas aprendendo a cooperar com um homem, o herói Max, impressionou os espectadores pela atualidade do tema.

E a ambição de Miller em criar imagens espetaculares é semelhante à dos dois últimos vencedores do Oscar de Melhor Diretor, os mexicanos Alfonso Cuarón e Alejandro G. Iñárritu, de Gravidade (2013) e Birdman (2014), respectivamente. O primeiro levou sua câmera ao espaço, o segundo resolveu filmar sua história em longas e impressionantes tomadas contínuas, sem cortes. Miller fez simplesmente o maior espetáculo de ação do cinema moderno, um que deverá ser apreciado por muito tempo, assim como os três Mad Max originais ainda hoje possuem uma grande base de fãs.

Se isso não demonstra a visão artística de um cineasta de respeito, então não sei o que mais demonstra. Se isso não merece uma indicação ao Oscar, então não sei o que merece. Por isso, fica o pedido: reconheçam a complexidade da questão e mantenham a mente aberta quando se trata de cinema. Uma distinção rígida e clara entre arte e entretenimento não ajuda na apreciação do cinema. Muitos filmes se movem e existem entre os dois. Uma mente aberta ainda é a melhor coisa que se pode fazer para apreciá-lo como arte na sua totalidade.

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