Arte Com Pipoca
Hayden Christensen de sobretudo cinza e camisa estampada, em close com leve sorriso e fundo desfocado
Divulgação

Hayden Christensen e a maldição do ator pop

Por Ivanildo PereiraAtualizado em 9 min de leitura

Publicado originalmente em 17 de dezembro de 2015 no Arte Com Pipoca.

Estava discutindo com amigos sobre Star Wars, claro, e surgiu o tema do Anakin Skywalker. “Vocês não acham que foi culpa do ator?”, perguntaram, e quando foi a minha vez de opinar eu disse não. E todos ficaram chocados ao meu redor.

“Foi mais culpa do roteiro e da direção do George Lucas”, eu disse, mas ninguém compartilhou da minha opinião.

Isso me motivou a escrever sobre o tema desta semana: A maldição que recai sobre muitos atores que interpretam papéis em filmes de destaque na cultura pop.

Hayden Christensen: “Odeio a areia. É áspera e entra em todo lugar”.

Se você conhece a saga Star Wars com certeza se lembra dessa fala dita em Episódio II: Ataque dos Clones (2002). Uma cena que devia ser romântica ganha ares de humor involuntário quando Hayden Christensen diz essa fala para a sua companheira de cena, a atriz Natalie Portman. Essa fala, e mais algumas outras espalhadas por esse filme e o próximo, Episódio III: A Vingança dos Sith (2005), até hoje são citadas como exemplo dos problemas da trilogia prequel que George Lucas realizou anos depois dos filmes originais: especialmente, o fato de os filmes parecerem mais interessados nos efeitos por computação do que em coisas básicas como “roteiro”, “desenvolvimento de personagens” e “atuações do elenco”.

Christensen vinha de participações em séries de TV e tinha feito dois filmes quando foi escalado por Lucas para Star Wars: Uma ponta no ótimo As Virgens Suicidas (1999) de Sofia Coppola e um papel de destaque no hoje esquecido drama Tempo de Recomeçar (2001). E depois de Star Wars, sua carreira não decolou. Em 2014 ele atingiu o fundo do poço (será?) ao contracenar com Nicolas Cage – outro que já viveu dias melhores e parece aceitar qualquer papel que lhe renda alguns dólares – no embaraçoso O Imperador.

Fica a pergunta: Hayden Christensen é um mau ator? Para a maioria das pessoas, sim. Vejam bem, eu não vou tentar defendê-lo abertamente aqui. Vou apenas bancar o “advogado do Jedi” e discorrer sobre por que, muitas vezes, o ator não é inteiramente culpado pelo seu mau desempenho. E já começo citando outro exemplo…

Natalie Portman: O Contraponto

Em 2014 a companheira de cena de Christensen na saga Star Wars, a atriz Natalie Portman, deu uma declaração interessante à revista New York: ela disse que a trilogia quase acabou com a sua carreira. “Estive no filme de maior bilheteria da década e nenhum diretor queria trabalhar comigo, todos achavam que eu era uma atriz horrível”, disse Portman.

Na mesma entrevista ela credita ao diretor Mike Nichols a salvação da sua carreira. Nichols foi quem lhe deu o papel de Alice no drama romântico Closer: Perto Demais (2004). Por Closer, Portman conseguiu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. Alguns anos depois, o Oscar veio por Cisne Negro (2010).

Ninguém diria, por Star Wars, que Portman seria capaz de fazer papéis desafiadores como os de Closer e Cisne Negro. Quando foi bem dirigida e com um roteiro sólido, ela correspondeu à altura. E ela é só um exemplo do grande elenco da trilogia. Afinal, ninguém em sã consciência falaria mal de atores como Samuel L. Jackson, Liam Neeson e Ewan McGregor; mas o que se vê nos Episódios I, II e III é um fenômeno curioso. Atores britânicos (ou das redondezas) como McGregor, Neeson, Christopher Lee e Ian McDiarmid estão muito bem; enquanto os americanos Jackson e Portman e o canadense Christensen estão péssimos. Talvez o treinamento dos britânicos faça a diferença… Então, o caso deste último não é isolado.

Atores: Os mais sujeitos a críticas

Dentre todos os profissionais envolvidos na atividade cinematográfica, são os atores os que mais dão “a cara a tapa”, por assim dizer, e assim são os mais fáceis de criticar. E com o advento da internet, essas críticas hoje em dia são feitas, muitas vezes, antes mesmo dos filmes estrearem.

Afinal, quem se esquece das reclamações quando do anúncio de Ben Affleck como Batman/Bruce Wayne no vindouro Batman vs. Superman: A Origem da Justiça? O ódio da internet tinha como base a atuação anterior de Affleck como outro super-herói, em Demolidor (2003). Vale relembrar, a má recepção a Demolidor, aliada a outros fracassos da carreira de Affleck, o fizeram dar um tempo e a investir na carreira de diretor, a qual vem administrando com sucesso.

Agora, vamos observar o caso de Demolidor. Lembram-se do tom humorado, pouco apropriado ao personagem? Lembram-se das cenas bobas entre Affleck e Jennifer Garner? Lembram-se do vilão sem profundidade de Colin Farrell? Lembram-se de como o herói virava ninja com poucos minutos de filme? Tudo aquilo proveio do roteiro do filme. Eu sempre sou partidário da opinião de que o roteiro é o alicerce de um filme, especialmente quando se fala do cinema de Hollywood. Se o alicerce é falho, a casa não se sustenta. E com aquele roteiro, não haveria como Affleck fazer um bom trabalho.

Ainda sobre Batman vs. Superman, é curioso ver como essas reclamações iniciais são revertidas, em vários casos. No mesmo filme, vimos inúmeras reclamações, muitas delas com teor sexista, sobre a escolha de Gal Gadot como Mulher Maravilha. A atriz, supostamente, não tinha o “tipo físico” para viver a heroína da DC Comics – leia-se, foi considerada magra demais e não era “gostosa” o suficiente. Agora, dois trailers depois, a percepção sobre ela já começou a mudar. Hoje a Mulher Maravilha ganha destaque e Gadot impressiona aqueles que a criticaram. E há outros casos também: Robert Pattinson e Kristen Stewart vêm construindo belas carreiras e atuando em filmes cada vez melhores depois de Crepúsculo; Chris Evans se queimou nos filmes do Quarteto Fantástico, mas depois viveu um ótimo Capitão América; Heath Ledger foi muito criticado quando foi anunciado como Coringa, mas depois entregou aquela atuação de que todos nos lembramos. Mas nenhum caso de rejeição transformada em adoração foi mais emblemático do que o de Daniel Craig como James Bond. Criticado inicialmente, Craig estrelou em 2015 seu quarto filme de sucesso como o agente 007.

O caso Anakin: Um ator no Lado Sombrio da Força

Personagem curioso este Anakin Skywalker: ele estragou as carreiras dos seus dois intérpretes, Christensen e o jovem Jake Lloyd, que o interpretou em Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999). Star Wars realmente é um fenômeno cultural como nenhum outro, do qual os atores nem sempre sobrevivem incólumes. Afinal, da trilogia original Harrison Ford virou astro, mas Mark Hamill também teve uma carreira pouco expressiva, assim como Christensen – será que é mal da família Skywalker?

Por isso mesmo, é uma pena que poucos se lembrem de uma ocasião na qual Christensen teve um grande roteiro em mãos e rendeu como ator. Foi no drama O Preço de Uma Verdade (2003), baseado em fatos reais, e no qual ele interpretou um jornalista que foi acusado de inventar notícias, num grande escândalo que abalou o jornalismo americano. É um ótimo filme e Christensen está ótimo nele, e muitos que só o conhecem como Anakin deverão se surpreender caso vejam o longa agora.

Por ter demonstrado potencial ao menos uma vez, fico incomodado de descartar o ator porque ele nunca teve outra chance, seja por suas próprias escolhas ou pela percepção enviesada do público, ou os dois. Natalie Portman teve quem a resgatasse, e se não fosse Closer, onde ela estaria agora, independente do seu belo trabalho de estreia em Leon: O Profissional (1994)? Hayden Christensen não teve nenhum salvador, e nem parece que vai ter. Então, sinceramente hesito em jogar o ator na lata do lixo, quando vários outros mais experientes do que ele também se mostraram ruins sob a direção e o roteiro de George Lucas.

Muitas pessoas parecem não se dar conta do grande nível de profissionalismo envolvido no cinema, especialmente o americano. Os atores, quando são contratados para um filme, basicamente chegam ao set para fazer o que o diretor quer e o que está no roteiro, e as arestas já foram aparadas antes das câmeras começarem a gravar. A não ser que estejamos falando de um filme do Terrence Malick, por exemplo, que inventa quase tudo na hora e depois reinventa de novo na montagem, a maioria dos atores vive desse profissionalismo. Os tempos de atores temperamentais que faziam o que queriam no set, como Marlon Brando, já se foram. Qual foi a última vez em que se viu um ator entrar em conflito com a produção de um filme? Só consigo me lembrar do Edward Norton querendo dar palpites na história de O Incrível Hulk (2008) e ter bancado o difícil durante a produção. Como resultado, o Marvel Studios rescindiu seu contrato sem cerimônia e o ator ficou de fora dos filmes dos Vingadores, onde foi substituído por Mark Ruffalo.

E me responda, sinceramente: quem poderia ter feito funcionar os diálogos e situações escritas por Lucas? Quem poderia ter demonstrado uma boa atuação fazendo aquela cena de Christensen e Portman em Episódio III: A Vingança dos Sith (2005)? Aquela mesma, na qual eles trocam a seguinte conversa:

– Você é tão linda.

– É porque estou apaixonada.

– Não, é porque eu estou apaixonado por você.

– Então o amor te cegou?

– Bem, não foi isso que eu quis dizer.

– Mas provavelmente é verdade.

Se me perguntarem, nem Brando e Meryl Streep teriam feito isso funcionar.

Então, da próxima vez em que forem falar mal de um ator, lembrem-se de prestar atenção também ao nome do diretor e no material com o qual eles têm de trabalhar. É preciso haver compreensão do maquinário do cinema e de como o ator é, muitas vezes, apenas uma peça do quebra-cabeça. E se as peças não encaixam como deviam, a culpa nem sempre é só deles.

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