Arte Com Pipoca
Cooper de traje espacial branco em planeta gelado, com formações de gelo ao fundo e neve no ar
Divulgação/Paramount Pictures

Interestelar

Por Lexy SoaresAtualizado em 6 min de leitura

Publicado originalmente em 12 de novembro de 2014 no Arte Com Pipoca.

Sinopse

Num futuro próximo, pragas nas lavouras e tempestades de poeira ameaçam a sobrevivência da humanidade. Cooper, ex-piloto da NASA que virou fazendeiro, aceita liderar uma missão através de um buraco de minhoca em busca de um planeta habitável, sabendo que o tempo corre de outro jeito no espaço e que talvez nunca mais veja os filhos crescerem.

Se parecia que trabalhar com os filmes do Batman iria fazer com que Christopher Nolan desse uma guinada em sua carreira, se tornando mais comercial, Interestelar é a prova de que ele não se rendeu ao caminho fácil. Seu mais recente filme, além de uma ótima incursão à Ficção Científica espacial, possui um dos roteiros mais inteligentes do gênero realizado nos últimos anos.

O filme conta a história de um grupo de cientistas espaciais que, em busca de um novo planeta para habitar a população terrestre, se aventura por um “buraco de minhoca” nessa busca. A trama é centrada em Cooper (Matthew McConaughey), um fazendeiro viúvo que vive com sua família (um casal de filhos e o sogro). Sua filha Murphy acredita que a casa é mal assombrada. Apesar de não acreditar nas assombrações que ela lhe conta, os dois acabam seguindo uma mensagem que o suposto fantasma lhes dá, e acabam tomando contato com uma instalação secreta da NASA, onde Cooper acaba participando como piloto da missão de exploração do buraco de minhoca. A missão da NASA é enviar uma nave pelo buraco para analisar três planetas em potencial para servir de nova “casa” da humanidade.

O roteiro é pontuado em cada momento da vida dos personagens, primeiro com um primeiro ato bem longo, que mostra como é a vida na Terra, nesse futuro próximo, e ficamos sabendo através do dia a dia da família da Cooper que o planeta está sofrendo um colapso ambiental, com tempestades de areia cobrindo as casas, e pragas atacando as plantações. Grandes planos abertos, um ritmo lento, e cenas com diálogos concisos, deixam o filme com um ar bastante intimista. De certo modo, essas “pontuações” fazem o filme parecer episódico. Cada parte da história é narrada com sua própria pequena conclusão, antes de passar para outra fase da trajetória dos personagens.

Mas quando o filme se torna propriamente uma história espacial, ele não muda seu estilo. O que eu menciono como parecendo um filme episódico, é só uma “promessa” do roteiro, mas o filme vai passando por essas leves reviravoltas sem perder suas características básicas. No espaço, somos levados a vivenciar com os astronautas o drama de se viver longe de casa, e “sofrendo” com os efeitos da teoria da relatividade, e como o tempo é diferente em cada dimensão. Por exemplo, em determinado momento, enquanto a nave principal aguarda em órbita do buraco, uma equipe vai até um dos planetas, e, enquanto sua missão durou pouco mais de duas horas, para o membro que ficou em órbita se passaram 23 anos. Com isso, Nolan utiliza esse recurso da física para contar sua história quase como ele costumava fazer em seus filmes anteriores aos Batman, que entrelaçavam tramas paralelas entre si, mas em linhas cronológicas alternadas. Aqui, enquanto vemos Cooper e sua equipe no espaço, temos sua família (em especial sua filha Murphy) vivendo com uma passagem de tempo diferente na Terra. Para Cooper, o tempo corre mais lentamente, sendo que, no pouco tempo que ele esteve no espaço, sua filha viveu anos, e, quando ela se torna mais uma das protagonistas da trama, está com a mesma idade do pai.

Utilizando um estilo inspirado em “2001 Uma Odisseia no Espaço” (embora quase nada no filme do Nolan seja realmente igual ao de Kubrick), o filme possui imagens belíssimas, com planos abertos nos ambientes dos planetas visitados pelos astronautas, com cenas sem sons em vários momentos (lembrando o ótimo “Gravidade”), e um realismo mais próximo possível do real. A produção contou com dados de um físico para a criação do visual do buraco de minhoca, além das teorias do tempo relativo vistas na trama. Com tudo isso, o filme pode ser considerado “chato” pra quem estiver esperando por um filme blockbuster recheado de correria, e um final catártico. Pelo contrário, este filme é um drama, não um filme de ação. E, como drama, é pra quem quer ver uma história sobre seres humanos. Até mesmo a questão da sociedade nessa Terra do futuro, com seus problemas ambientais, é tratada como subtrama. Embora, de modo genial, cada informação sobre esse mundo está inserida nos diálogos, movimentando o enredo, e informando o espectador.

Os filmes do Batman parece que foram o marco divisor na carreira do diretor, até mesmo em seu estilo de roteiro. Até o primeiro filme do Morcego, seus personagens viviam trajetórias narradas em linhas cronológicas separadas, em buscas exteriores; Com “Cavaleiro das Trevas”, temos um personagem que acredita estar num combate contra o caos, mas se descobre inserido nesse caos desde o princípio, sendo quase impossível sair desse ambiente; E, com o terceiro filme da trilogia do super-herói, e mais evidente com este Interestelar, vemos uma busca interior, um homem lutando com seus sentimentos. Não contra eles, mas numa busca pela paz interior. Cooper é o elemento estranho aos astronautas da missão. Como é dito em um momento, todos os outros astronautas foram escolhidos por não terem laços de amizades e familiares na Terra. Menos ele, que possui uma família. Ele aparenta não ter resolvido seus sentimentos em relação à esposa falecida, e parte sem se resolver com a filha. Esse foco humano da história faz com que, mais que uma Ficção Científica “cabeça”, o filme seja um dos mais emotivos da carreira do diretor.

Se este filme possui pontos negativos, o fato de ele explicar muitos dos conceitos científicos apresentados. Explicações um tanto didáticas demais. Pra quem conhece os filmes do diretor, isso já se tornou uma marca dele. Mesmo assim, ele poderia resolver melhor essas explicações. Também senti que alguns personagens coadjuvantes não foram bem aproveitados. Como Romily, o astronauta que fica 23 anos esperando por Cooper e Amelia Brand (Anne Hathaway, como a filha do professor que comanda o projeto, e embarca na missão). Mas são defeitos pequenos, que não tiram o brilho do filme.

Interestelar é um filme grandioso. Seja em duração, seja no primor de sua produção. E, com certeza, um dos melhores da carreira de Nolan. Pra quem procura uma grande FC, com conteúdo inteligente, e bem desenvolvido, este pode ser o filme do ano.

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Ficha técnica

Cartaz de Interestelar: Cooper de traje espacial caminha por paisagem congelada; título INTERESTELAR no topo
Divulgação/Paramount Pictures
Título original
Interstellar
Ano
2014
Direção
Christopher Nolan
Roteiro
Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Elenco
Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Michael Caine, Bill Irwin, Ellen Burstyn
Gênero
Ficção científica, Aventura, Filme distópico
Duração
2h 49min
País
Estados Unidos, Reino Unido

Prêmios

  • Oscar de Melhores Efeitos Visuais
  • 5 indicações ao Oscar

Onde assistir

Ver onde assistir no JustWatch

Curiosidades

  • Na maior parte das cenas, o robô TARS não é computação gráfica: era um boneco operado e dublado no set pelo ator Bill Irwin, que depois foi apagado digitalmente da imagem.
  • O elenco reúne cinco vencedores do Oscar: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Ellen Burstyn e Matt Damon.
  • O buraco negro Gargantua foi concebido com a consultoria do físico Kip Thorne e é tido como a representação mais fiel à ciência já feita no cinema até então. O nome vem de um gigante de apetite insaciável criado pelo escritor renascentista François Rabelais.
  • Steven Spielberg trabalhou no projeto antes de Christopher Nolan e, anos depois, admitiu que o filme ficou muito melhor nas mãos dele.

Fontes: AdoroCinema, AdoroCinema, Olhar Digital, Estação Nerd

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