Arte Com Pipoca
Toni Servillo como Jep Gambardella, de blazer vermelho, fuma num sofá ornamentado enquanto uma mulher descansa ao lado
Divulgação/Indigo Film

A Grande Beleza

Por Daniel SerafimAtualizado em 10 min de leitura

Publicado originalmente em 13 de agosto de 2014 no Arte Com Pipoca.

Sinopse

Jep Gambardella escreveu um único romance de sucesso na juventude e, desde então, reina sobre as festas e os salões da alta sociedade romana. No verão em que completa 65 anos, ele começa a olhar para a própria vida e para a cidade com outros olhos, em busca de uma beleza que talvez nunca tenha encontrado.

“Como expressão artística, que integra outras expressões, físicas ou extrassensoriais, “A GRANDE BELEZA” surge como um desabafo, um recorte da sociedade e um choque de culturas. Emocional, por vezes idílico e estilizado, propõe a reflexão e nunca se sobrepõe a Roma, o grande interesse da obra. E não se sobrepõe a ” A DOCE VIDA ”, ” ROMA”* ou ” A NOITE ”, clássicos onde encontra referências.”*

Logo após a explosão de um canhão, uma câmera rápida nos sujeita a pequenas cenas que significam uma fração de tempo, enquanto um grupo de turistas japoneses ouve a guia situar a localidade. Numa dessas cenas um homem com semblante prostrado, em frente ao monumento da estátua equestre a Giuseppe Garibaldi, dos mais famosos heróis da unificação italiana, na Piazzale que leva seu nome, observa o detalhe do monumento onde está escrito “Roma O Morte”. Estamos no “Monte Gianicolo”, que não faz parte das famosas “7 colinas” de Roma, mas que é popularmente conhecido como a 8ª colina, de onde se obtém vistas impressionantes da cidade e que conta também um pouco da história. Além do monumento, há bustos de outros heróis e construções históricas, como a “Fontana dell’Acqua Paola”, datada de 1610 e justamente para onde a câmera nos converge. De dentro da “Fontana” ouvimos um teatro de vozes femininas, executar a composição erudita “I Lie” de David Lang (Lang é um dos compositores mais executados da América e querido pela Europa), a qual sustenta o prólogo inicial do filme e estabelece um link entre o espectador com as cenas, mas que transcende a isso, prevendo um tanto da amargura que se seguirá. Quando um dos turistas enfarta fotografando as vistas, ainda não é o fim, o prólogo segue sustentado pela canção que, enfim, termina interrompido por outra sequência espetacular, a da festa de criaturas bizarras num terraço ao lado do Coliseu. É esse o ponto de partida na abertura da obra-prima, vencedora do Oscar, do diretor napolitano Paolo Sorrentino.

Não menos intuitiva, a abertura de ” A GRANDE BELEZA ” demonstra o que é o filme, um grande desabafo, o desabafo de um mundo que trocou o profundo pelo superficial, de uma sociedade, antes robustecida pelo patrimônio histórico e que agora está à mercê de “qualquer coisa”. É o próprio diretor, incomodado a tal ponto com este mundo, quem também tenta desabafar tendo feito o filme. Mas para transpor um sentimento desta profundidade, utilizando uma expressão artística, são muitas as genialidades que Paolo pode se utilizar. Por conta disso, uma polêmica foi criada quando ” A GRANDE BELEZA ” foi interpretada à luz de obras primas do imortal Federico Fellini, a principal delas, o filme ” A DOCE VIDA ”, onde Roma se perdia toda em meio às vaidades de uma nova sociedade, visitadas pela figura emblemática de um jornalista, interpretado por Marcello Mastroianni; mas também referências mínimas ao filme ” ROMA ”, com passagens que ilustram de que cenários é que a cidade era feita e que inquietavam a Fellini. Paolo Sorrentino foi pego totalmente de surpresa, disse em entrevistas que não inspirou seu filme no gênio e que julgava seu trabalho muito longe dos trabalhos de Federico, pois segundo ele, o diretor fez obras primas e ele não. Mas, se vista à luz de ” A DOCE VIDA ”, ” A GRANDE BELLEZZA ” figura como um experimento, uma revisitação a Roma de Fellini, mais de 50 anos depois e guardadas as devidas proporções. Contudo, são inevitáveis as semelhanças, a começar pela forma que Fellini fez de Mastroianni seu “alter ego” e por Paolo ter afirmado que Toni Servillo é personificação de si mesmo em ” A GRANDE BELLEZZA ”. Ambos, inclusive, atualizam a cumplicidade de ator e diretor, iniciada em 2001 com ” L’UOMO IN PIÙ ”, filme ainda a ser descoberto. Toni Servillo aliás, é um dos grandes atores de sua geração, egresso de atuação e direção em teatro, com uma capacidade de interpretação excepcional.

Enquanto Mastroianni fez um jornalista, Toni Servillo interpreta Jep Gambardella, um escritor que fez um único sucesso literário e que teve sua fertilidade criativa bloqueada. Jornalismos à parte, o texto primoroso que compõe o roteiro do filme, figura como uma crônica ao nos situar na vida de Jep. Ao seu universo, somos introduzidos justamente através da segunda grande sequência do longa, que precede ao prólogo, sua festa de 65 anos, uma “mise-en-scène” visceral, que funciona como uma vitrine, que oscila da intensidade desses momentos e a capacidade do voyeurismo sádico, enfáticas quando a câmera mostra performances femininas atuando dentro de gaiolas de vidro. A sequência antológica é filmada por Paolo bem do jeito que o define, com cortes bruscos, com aqueles planos em movimento, enxergando o todo vistos de cima e à distância, que deslizam pelos trilhos de câmera e ao som d’uma trilha incendiária. Pouco a pouco descobrimos que ali está a sociedade burguesa, feita de figuras excêntricas e outras desprezíveis. Gente que no passado fez a fama, como a ex-vedete Serena Grandi ( sex-symbol italiano da década de 80) é exposta como atração de circo, além, é claro, da presença de intelectuais. E dá-lhe música latino-americana, drogas e sexo. Mas quando Jep deita na cama e olha para o teto, é o mar que ele enxerga e é a ele mesmo que tenta procurar. Enfim chega a uma conclusão, que na idade em que está, não vai fazer mais nada que não queira e que, na verdade, o que talvez lhe falte, é esse encontro com a grande beleza. Mas onde ela está, nas coisas do presente ou nas coisas no passado? Ou será que numa linha limítrofe? A partir dali cada um de seus passos será uma oportunidade para a reflexão, um convite para reler e reavaliar muitas coisas, inclusive o país e sua cultura atual. Num dos primeiros encontros, Jep vai entrevistar uma artista que encena uma peça a céu aberto entre ruínas, cujo clímax acontece quando ela dá uma cabeçada na parede e sangra. Quando questionada por ele sobre o que estaria expressando, pois ele próprio não entendeu nada, ela titubeia e não consegue responder. Fica difícil saber quem é você num país em que artistas não sabem o que fazem. Já em outro momento Jep está dentro de “San Pietro in Montorio”, a Igreja de arquitetura clássica renascentista, onde segundo pensa a tradição, o primeiro Papa, Pedro, foi martirizado crucificado de cabeça para baixo. É dentro do “Tempietto de Bramante”, capela comemorativa e construída no pátio da Igreja (justamente o sítio exato da cruz onde o Papa teria sido morto), que encontra uma garotinha, se escondendo da mãe, que ao vê-lo pergunta “Quem é você?” e quando ele vai responder “Eu sou…”, é interrompido por ela dizendo “Não, você não é ninguém.”. A sequência é memorável.

A caminhada de Jep vai se enchendo de amargura ao presenciar a identidade do passado, confundida entre a desorientação de expressões do presente, que causam uma espécie de depressão existencial. Como o mundo do personagem é de festas, enxerga o vazio dentro de todos e mantém-se sereno em sua busca. A relação com uma mulher, filha de um amigo de um tempo distante, por quem se encanta, é quase platônica e discorre à sombra de uma paixão do passado, que não foi concebida e que retorna sob consequência emocional, quando ela morre e o marido surge, dizendo que foi a Jep que ela amou. A interpretação de Toni Servillo transcende em momentos assim, transitando com leveza entre o eterno apaixonado, o cinismo perante o mundo externo e o misantropo, como nas palavras do próprio personagem “Io non sono misogino, sono misantropo”. É de figuras como a de sua editora chefe, uma anã, que ainda sente a familiaridade de tempos em que era chamado somente pelo apelido. Na contrapartida, também numa das cenas mais memoráveis, desenrola-se um encontro cotidiano entre amigos intelectuais em sua casa, onde em determinado momento se sente apto a dizer verdades constrangedoras para uma escritora pedante, que se julga superior aos outros. Enquanto o mundo parece perdido, Jep sabe o que realmente lhe emociona, surge então a cultura pop, que nos anos 2000 encontrou seu espaço nas principais capitais do mundo e principalmente capitais turísticas. Assim Paolo questiona o comportamento cultural, sujeitando um retrato cruel o da criança exposta como prodígio, a pintar uma grande tela com agressividade, para atrair o dinheiro dos ricos. Contraposto a isso, uma exposição feita de fotos da infância à vida adulta de alguém, que lota os muros de um museu a céu aberto, surge para Jep lhe arrancando lágrimas. Ou seja, ” A GRANDE BELEZA ” tece uma comoção, nos impele a pensar e é cirurgicamente bem dirigida, em sua plenitude e racionalidade. Com o uso da música, sacra e profana, que de acordo com o próprio Paolo, para ser possível pensar que ambas ambiguidades podem estar lado a lado para definir identidades. Em outros momentos cruciais, quando Jep observa o “Costa Concórdia” naufragado ou se surpreende com a prisão de seu vizinho, o político, com quem era difícil conversar, resplandecem ainda mais questões sociopolíticas, aquelas que estragaram a Itália. Quando questionado em entrevistas, Paolo Sorrentino diz que é impossível não pensar no prejuízo deixado por Berlusconi, que alimentou a cultura do nada, pois deixou interesses necessários ao país de lado e mergulhou em suas festas e orgias.

Mas de todos os papéis a desempenhar peso, como sempre fica a encargo da religião definir um restante, ainda mais em países como a Itália, o berço Católico. Enquanto o Cardeal, tido como o principal exorcista do passado, não consegue fornecer uma palavra de alento sequer a Jep e está interessado em atrair a atenção com receitas de cozinha, é a freira, velha e santa, quem o surpreende. Numa sequência antológica a velha está na varanda de Jep, cercada de Flamingos. Ao perceber que ele se aproxima ela pergunta “Por que nunca mais escreveu um livro?” e ele responde “Porque procurava a grande beleza e nunca a encontrei.” O que se segue é um poetismo abismal, ela diz “Sabe por que eu só como raízes?” e virando-se pra ele continua “porque raízes são importantes”. E com um sopro da velha os flamingos levantam voo. O uso deste poetismo, tanto pelo visual, quanto pelo textual, habituais ao cinema do diretor, é crucial para definir a obra e elucidar o que ela propõe. Submete ao personagem o reencontro com a maneira simples de pensar milagres ou grandes ideias, escassas entre os “homens” e faz com que ele encare suas perdas do passado, como a da mulher que amava. Dessa forma, o filme não só valeu a pena todos os prêmios e o Oscar, como é raro ver filmes que se integram ao ambiente com tanta cumplicidade. O grande mote do filme de Paolo Sorrentino, hoje um perfeito expoente do cinema italiano, é justamente ter filmado praticamente todo o longa “in loco” e não sobrepor as ações ao espaço geofísico. Ora, o filme é visto assim como integrante do espaço que nos sugestiona e Roma nunca deixa de ser Roma. Linda e bela. Pois como também disse o diretor, se existe um vínculo com Fellini (em especial com o do filme ” ROMA ”), é se render à cidade e às suas luzes. Nunca às pessoas, mas a Roma.

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Ficha técnica

Cartaz de A Grande Beleza: homem de blazer amarelo sentado diante de uma estátua clássica reclinada, com o título em amarelo
Divulgação/Indigo Film
Título original
La grande bellezza
Ano
2013
Direção
Paolo Sorrentino
Roteiro
Umberto Contarello, Paolo Sorrentino
Elenco
Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte, Pamela Villoresi
Gênero
Comédia dramática
Duração
2h 22min
País
Itália, França

Prêmios

  • Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
  • Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
  • BAFTA de Melhor Filme em Língua Não Inglesa
  • European Film Awards 2013: Melhor Filme, Direção, Ator (Toni Servillo), Roteiro e Montagem

Onde assistir

Ver onde assistir no JustWatch

Curiosidades

  • O filme disputou a Palma de Ouro em Cannes em 2013; foi o quinto longa de Paolo Sorrentino selecionado para o festival.
  • Toni Servillo e Sorrentino trabalham juntos desde o primeiro longa do diretor, "L'uomo in più" (2001). Servillo tem carreira ainda mais longa no teatro do que no cinema.
  • Além da versão de cinema, com cerca de 2h20, existe uma versão estendida do diretor com quase três horas.

Fontes: Wikipédia, Papo de Cinema, SAPO, Wikipédia (en)

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