Arte Com Pipoca
Três rapazes de roupas claras junto a um muro descascado; o da frente, de barba, leva a mão ao rosto
Divulgação/Buriti Filmes

Bicho de Sete Cabeças

Por Patricia BaleeiraAtualizado em 6 min de leitura

Publicado originalmente em 15 de janeiro de 2014 no Arte Com Pipoca.

Sinopse

Neto é um adolescente paulistano com as rebeldias comuns da idade, até que o pai encontra um cigarro de maconha no bolso do seu casaco. Sem entender o filho, a família decide interná-lo num hospital psiquiátrico, onde Neto passa a conviver com uma realidade de abandono, violência e tratamentos desumanos.

“o buraco do espelho está fechado agora eu tenho que ficar aqui com um olho aberto, outro acordado no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso mesmo que me chamem pelo nome mesmo que admitam meu regresso toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede a palavra de água se dissolve na palavra sede, a boca cede antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira quatro, cinco, seis da madrugada vou ficar ali nessa cadeira uma orelha alerta, outra ligada” Arnaldo Antunes

Bicho de Sete Cabeças é um filme de drama brasileiro de 2000 dirigido por Laís Bodanzky e com roteiro de Luiz Bolognesi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos. O filme foi realizado com a parceria entre as produtoras brasileiras Buriti Filmes, Dezenove Som e Imagens Produções Ltda. e Gullane Filmes, com a participação da brasileira Rio Filme Distribuidora e da italiana Fabrica Cinema,1 e contou com Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kiss nos papéis principais.

O filme conta a história de Neto (Rodrigo Santoro), um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico após seu pai descobrir um cigarro de maconha em seu casaco. Lá, Neto é submetido a situações abusivas. O filme, além de abordar a questão dos abusos feitos pelos hospitais psiquiátricos, também aborda a questão das drogas e a relação entre pai e filho.

Seu Wilson e seu filho Neto possuem um relacionamento difícil, com um vazio entre eles aumentando cada vez mais. Seu Wilson despreza o mundo de Neto e este não suporta a presença do pai. A situação entre os dois atinge seu limite e Neto é enviado para um manicômio, onde terá que suportar as agruras de um sistema que lentamente devora suas presas.

Esse filme é muito especial pra mim. Não somente por retratar a dificuldade de relacionamento entre pai e filho e sim a coragem em retratar o caos que é o “tratamento psiquiátrico nos manicômios”. Em uma cena o Doutor Sintra (Psiquiatra Responsável) recebe um telefonema que informa o possível cancelamento da verba para o Hospital. Caso ele não consiga mais internos. Logo, ele cita que buscará mais pacientes debaixo de algum viaduto da cidade. O equilíbrio mental dos pacientes não é prioridade e miseráveis podem ser trancafiados no hospício, o repasse do governo para clínicas abarrotadas é que não deve ser perdido.

Será um filme de valor social? Existem pessoas que acreditam que o filme foi um dos principais propulsores da implantação da Lei Paulo Delgado, que ainda assim teve sua cláusula essencial alterada, após 12 anos de sua elaboração( ou seja na realidade muito pouco mudou).

Eletroconvulsoterapia; medicamentos tranquilizantes; injeções aplicadas grosseiramente; reclusão em locais exíguos, insalubres e fétidos ― procedimentos aplicados de modo desordenado, muito além dos 84 minutos muito bem filmados por Bodanzky. Neto (Rodrigo Santoro) é o típico louco “fabricado” pelos próprios métodos classificados como sanativos nos arredores da psiquiatria dos anos 1990 (Bodanzky quis alertar o espectador, situá-lo na atualidade), vista como uma inequívoca forma de política pelos mais analíticos. O filme aborda questões sociais como os abusos sofridos pelos pacientes dos hospitais psiquiátricos cometidos pelos médicos e funcionários desses locais, a questão das drogas e a relação problemática entre pai e filho. Essas abordagens renderam críticas positivas sobre o filme e fizeram com que as pessoas repensassem antes de internar seus filhos em alguma instituição. Carrano se refere às instituições como “chiqueiros psiquiátricos”, e quando perguntado a ele se Bodanzky fizera uma adaptação fiel de seu texto, ele respondeu:

“Acho que o filme ficou na dosagem certa, embora não passe nem 10% do que nós pacientes psiquiátricos passamos dentro desses chiqueiros psiquiátricos, que ainda hoje são verdadeiras “casas de extermínio”. Quando comparo essas instituições do terror com casas de extermínio, não é só pelo fato de 80% dos internos morrerem ou virarem moradores lá dentro, mas também pela prisão física e química às quais somos submetidos, ou seja, uma morte em vida que nos leva ao zumbinismo.”

De acordo com o raciocínio do jornalista Luiz Carlos Maciel no jornal O Pasquim em janeiro de 1970, um ex-interno não é mais humano, como estabelece a moralidade vigente mais ou menos definitivamente. Com Neto não é diferente, apesar de sua repelência ter sido pouco abordada, mas pode ser ainda pior. Como louco fabricado, no domínio da doença adquirida e consequentemente punido pelo próprio psicológico, ele está impedido de adaptar-se à sociedade que voluntariamente se omite e acaba voltando ao pesadelo dos hospícios. É revoltante concluir que ele entrou normal e saiu perigosamente alterado. Foi “tratado” para ser um excluído.

Neto faz apelos constantes para sair do manicômio e são encarados como táticas de um “viciado” que pagaria qualquer preço para retornar ao convívio com as drogas, o que só faz com que se prolongue sua internação. Quando consegue sair, passa a conviver com o preconceito dos outros e tem dificuldades de readaptação que o levam a incorrer em novos erros e descaminhos, levando-o a nova internação.

Como escapar desse vai e vem? O que nós podemos fazer? Será, que o tratamento com eletrochoque , realmente não tem resultado positivo?Sensibilidade é uma das palavras essenciais nessa relação delicada. Compreensão e diálogo também fazem parte do caminho da recuperação. Neste caso a recuperação(ou início dela) seria a boa relação entre pai e filho (lembrando que Neto não era um viciado convicto).Este filme possui 2 vertentes ficção : drama familiar e documentário mostrando a dura e ainda presente realidade da situação manicomial.

Com qual divisão/porcentagem algumas instituições psiquiátricas adotam os padrões de tratamento? Solitária, camisa de força, eletrochoque e medicamentos, são 90% do tratamento. Atenção, Sensibilidade e Fraternidade são 10%? Já tive oportunidade de visitar alguns centros psiquiátricos( público e particulares) o que vi? Um misto de descaso, insensibilidade e pacientes com um grau de exclusão e solidão, fora do comum.

Bom, deu para perceber que este filme, consegue mexer com nossa mente e para finalizar, uma das frases: “Pai, as coisas são boas quando a gente esquece. Mas, eu ainda não esqueci o que você fez comigo. Lembra da frase que você disse: Eu cheguei onde cheguei. Quero ver onde você vai chegar? Pois é Pai…cheguei aqui. Aqui é meu lugar. Seu mundo aí é fora não é mais pra mim” Neto em sua carta ao Pai.

Confira a ficha técnica completa de Bicho de Sete Cabeças.

Saiba um pouco mais sobre o **Movimento Antimanicomial. **

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Ficha técnica

Título original
Bicho de Sete Cabeças
Ano
2000
Direção
Laís Bodanzky
Roteiro
Luiz Bolognesi, Austregésilo Carrano Bueno
Elenco
Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kis, Caco Ciocler, Gero Camilo, Luiz Bolognesi
Gênero
Drama
Duração
1h 14min
País
Brasil, Itália

Prêmios

  • Festival de Brasília 2000: Melhor Filme, Direção, Ator (Rodrigo Santoro), Ator Coadjuvante (Gero Camilo), Fotografia, Prêmio da Crítica e Júri Popular
  • Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2002: Melhor Filme, Direção, Ator, Ator Coadjuvante (Othon Bastos), Roteiro, Trilha Sonora e Montagem

Onde assistir

Ver onde assistir no JustWatch

Curiosidades

  • O filme é baseado no livro autobiográfico "Canto dos Malditos", em que Austregésilo Carrano Bueno relata suas internações psiquiátricas nos anos 1970; ele se tornou um nome importante da luta antimanicomial.
  • Foi o primeiro longa-metragem da diretora Laís Bodanzky.
  • Rodrigo Santoro, então conhecido como galã de novela, protagonizava seu primeiro longa e chegou a ser vaiado antes da exibição no Festival de Brasília, onde acabou premiado como melhor ator.
  • A trilha sonora, assinada por André Abujamra, mistura Arnaldo Antunes, rap e punk rock nacional.

Fontes: Wikipédia, Papo de Cinema, Omelete, Enciclopédia Itaú Cultural, Buriti Filmes

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