Arte Com Pipoca

O som do… cinema mudo

Por Letícia MagalhãesAtualizado em 3 min de leitura

Publicado originalmente em 10 de maio de 2014 no Arte Com Pipoca.

Epa! Essa mulher já vai começar no Arte com Pipoca com uma contradição? Se o cinema é mudo, não tem som. Enganam-se: o cinema mudo tinha sons, música e dança de uma maneira que o tempo e as tecnologias apagaram, mas que deveria voltar a existir. Compreendemos por cinema mudo o período que vai de 1895, quando os irmãos Lumière filmaram cenas cotidianas com sua nova invenção, e algo entre 1927 e 1929. Em 1927 surgiu o primeiro filme com diálogos integrados, “O Cantor de Jazz”, e até 1929 os filmes mudos e os falados coexistiram. Algumas exceções de películas silenciosas invadiram os anos 30, como as obras-primas de Chaplin “Luzes da Cidade” (1931) e “Tempos Modernos” (1936). O cinema mudo tinha algo fascinante: música ao vivo. As primeiras salas de cinema eram construídas como se fossem salas para espetáculos de teatro (e as atuações da era silenciosa tinham de fato algo de teatral), e as mais refinadas contavam com o fosso para orquestra. Assim, a trilha sonora era executada durante o filme, com a possibilidade de se criar efeitos especiais, como de campainhas, telefones e objetos caindo, além de adequar a melodia ao clima que a cena queria transmitir: ação, suspense, romance…

Acredite ou não: nos anos 20, a maioria dos músicos profissionais estavam de uma maneira ou de outra empregados pelo setor cinematográfico. Os que não se apresentavam durante a exibição dos filmes podiam ser empregados nos sets de filmagem, tocando (geralmente piano) para inspirar os atores durante a cena. Isso é mostrado muito bem pelo personagem de Donald O’Connor em “Cantando na Chuva” (1952). Outros tantos músicos estavam dentro dos estúdios, mas compondo músicas exclusivas para cada filme, que mais tarde seriam impressas em partituras a serem distribuídas junto com o rolo de película pelo país todo.

Em alguns cinemas havia também números de dança antes, depois ou durante o intervalo dos filmes mudos. Muitos futuros artistas começaram assim e, vistos por magnatas do cinema, ganharam uma chance em frente às câmeras. Nosso jeitinho brasileiro já estava muito presente nesta época: alguns campeões de bilheteria do cinema mudo nacional consistiam em atores filmados mexendo a boca e outros atores atrás da tela, dublando as canções. No Japão, além dos efeitos sonoros, havia também narradores chamados “benshi” que descreviam as cenas e até “dublavam” alguns personagens. Não pensem que a arte dos filmes mudos está acabada. E eu não estou falando da ressurreição causada pelo filme “O Artista” (2011), vencedor de 5 Oscars. Ainda há muitas áreas de trabalho relacionadas a essas pérolas da história do cinema, entre elas carreiras acadêmicas e na área de restauração de películas. E há também muito trabalho para os compositores. Como assim? A maioria das melodias que acompanhavam a exibição dos filmes ou se perderam, ou estão completamente dissociadas das obras cinematográficas. Algumas até eram total improviso durante a exibição, quando havia um músico mais criativo e virtuoso (ou quando o filme era curta-metragem).

Por isso há um bom campo para compositores. Em países do hemisfério norte, é comum haver sessões de filmes mudos em grandes cinemas, sozinhos ou em festivais, com uma orquestra e um público fiel. O grande expoente nessa função é o compositor Carl Davis, que criou algumas das mais memoráveis trilhas sonoras de filmes mudos (e também da versão de 1995 de “Orgulho e Preconceito”), incluindo dois dos meus favoritos: “O Grande Desfile” (1925) e “A Carne e o Diabo” (1926). Aposto que você não imaginava que o cinema mudo poderia ser tão eletrizante e empregar talentos até hoje!

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