
Game of Thrones – 4ª temporada
Por Ivanildo PereiraAtualizado em 7 min de leitura
Publicado originalmente em 29 de junho de 2014 no Arte Com Pipoca.
Sinopse
Os Lannister parecem ter vencido a guerra, e Porto Real se prepara para um grande casamento real. Mas a paz é frágil: Tyrion se vê no centro de uma trama perigosa, os selvagens avançam contra a Muralha defendida pela Patrulha da Noite e Daenerys aprende que conquistar cidades é mais fácil do que governá-las.
GAME OF THRONES: Quarta Temporada
Cotação: ★★★★ Muito Bom
ESMAGANDO OS BESOUROS
Realmente não há outra experiência na televisão como “Game of Thrones”. Inigualável em termos de escala, a série se diferencia também pelo aspecto narrativo. Quatro temporadas já se foram e o espectador ainda não consegue apontar quem é o protagonista da série. Pelo contrário, há pelo menos quatro ou cinco personagens que se destacam como os protagonistas dentro das suas histórias. Em vez de ter um núcleo, como quase todas as séries (na verdade, como quase todas as histórias), “Game of Thrones” tem um universo vasto. Na verdade, se há um centro no seriado, é o jogo do título, disputado por vários personagens e cujo objetivo final é o Trono de Ferro.
Isso a torna uma história imprevisível, pois se não há heróis ou protagonistas claros, é difícil “torcer” para qualquer personagem. Não há também o maniqueísmo geralmente presente nesse tipo de história fantástica: embora até existam em “Game of Thrones” personagens que possam ser caracterizados como “bons” ou “maus”, a maioria deles se situa numa zona cinzenta. E não podemos ter certeza da vitória do bem no final, até mesmo porque poucos personagens “bons” ainda permanecem vivos na série a esta altura.
A forma como o seriado é estruturado se deve ao material fonte no qual o programa se baseia, a série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin. São livros longos, detalhados, com muitos personagens e uma rica história, alimentada pela imaginação prodigiosa do autor. Por isso, são perfeitos para serem adaptados de forma episódica na TV. Porém o universo vem ficando tão vasto que nesta quarta temporada, a série adquiriu um tom ainda mais episódico. Em 2014, foi o ano dos “momentos” e nem tanto da coesão narrativa – mas, para o mérito do seriado, quase todos os momentos foram realmente espetaculares e inesquecíveis.
A temporada se inicia sob a ressaca do final sangrento do ano anterior, no qual o “Casamento Vermelho” aparentemente trouxe o fim da guerra pelo Trono de Ferro. Com a saída de cena dos Starks, tem início uma nova configuração de poder nos Sete Reinos. Mais fortes do que nunca, os Lannisters planejam consolidar seu poder com o casamento do rei Joffrey (Jack Gleeson) com Margaery Tyrell (Natalie Dormer). Porém um acontecimento inesperado coloca em risco o futuro do reino e também a vida de Tyrion Lannister (Peter Dinklage).
Os eventos em Porto Real repercutem em toda a série, mas continuamos acompanhando outros personagens em suas respectivas jornadas. Vemos Arya (Maisie Williams) e o Cão de Caça (Rory McCann) seguindo a caminho do Ninho da Águia, e a menina perde um pouco mais da sua humanidade no caminho. Bran (Isaac Hempstead-Wright) e seus amigos prosseguem em sua jornada em busca do corvo de três olhos. Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau) se acostuma à sua nova posição em Porto Real, e depois manda Brienne de Tarth (Gwendoline Christie) à procura de Arya, para cumprir uma velha promessa. E, obviamente, reencontramos Daenerys (Emilia Clarke) além do Mar Estreito, descobrindo como é difícil governar; e Jon Snow (Kit Harington), preparando-se para o ataque das forças dos Selvagens à Muralha.
Enquanto a história de Snow pelo menos atingiu um ponto culminante com a batalha do Castelo Negro no nono episódio, “The Watchers in the Wall”, a de Daenerys permaneceu estática, só esquentando em alguns momentos, como nas breves cenas entre Verme Cinzento (Jacob Anderson) e Missandei (Nathalie Emmanuel). Ou na interação entre Daenerys e Dario (agora interpretado por Michiel Huisman, e curiosamente o novo ator não tem a menor semelhança com o anterior).
A fragmentação entre as histórias fez com que não houvesse episódios unificados por um tema. Em vez disso, acompanhamos um personagem aqui, outro ali, dando uma checada neles de vez em quando, e a série passou a ser definida por momentos bombásticos. Ora, o que fica na memória após o segundo episódio, “The Lion and the Rose”, é a cena final, assim como o discurso de Tyrion em “The Laws of Gods and Men”, ou a luta no desfecho de “The Mountain and the Viper”. Um momento que causou polêmica, de forma não antecipada pelos produtores da série, foi a cena de sexo entre Jaime e Cersei Lannister (Lena Headey) no terceiro episódio, “Breaker of Chains” – foi considerada um estupro pela maioria dos telespectadores, e com razão.
Foi um momento estranho porque não teve consequências narrativas – lá pelo final da temporada Cersei parece ter esquecido tudo e perdoado Jaime. Além disso, a cena quase destruiu todo o processo de redenção pelo qual Jaime passou na terceira temporada. Para quê fazer isso, se não há uma forte razão dentro da história para tal? A falta de uma resposta convincente a essa pergunta deixou um gosto um pouco amargo na série, e ficou parecendo que os produtores e a HBO estavam interessados em chocar apenas pelo choque. Ao longo da série houve vários momentos chocantes, inclusive com conteúdo sexual, mas sempre existia um claro propósito narrativo para eles, o que faltou aqui.
Felizmente, apesar desse tropeço, há muito que se apreciar nesta temporada. Quanto ao elenco, Pedro Pascal rouba a cena como o príncipe Oberyn Martell; Maisie Williams impressiona com o amadurecimento da sua personagem e até pôde, por um breve momento, voltar a ser criança; Emilia Clarke e Iain Glen, como Sor Jorah, dividem um momento dramático e intenso juntos; e Peter Dinklage se mostra novamente candidato a prêmios com sua interpretação como Tyrion. Sua atuação nos minutos finais do referido episódio “The Laws of Gods and Men” é antológica, fazendo explodir a adormecida raiva do personagem e combinando-a com a típica astúcia de Tyrion.
E tecnicamente, “Game of Thrones” continua o mais espetacular seriado da TV. A batalha do Castelo Negro em “The Watchers in the Wall” consegue até superar a batalha da Água Negra na segunda temporada – não por coincidência, Neil Marshall, diretor de “Abismo do Medo” (The Descent, 2005), comandou os dois episódios. A equipe de “Game of Thrones” consegue, com bem menos tempo e dinheiro, realizar cenas grandiosas que não ficam a dever a produções do cinema. A sofisticação do seriado não é só técnica, mas também narrativa: a coesão visual de “The Laws of Gods and Men” é admirável. O episódio é sobre pessoas sendo julgadas por outras em posição de superioridade, e nas três cenas de “julgamento” há três juízes em cada uma, belas rimas visuais que unem o episódio tematicamente.
Esse episódio foi um dos poucos exemplos de coesão temática na temporada. Mas, curiosamente, a falta dessa coesão na maior parte do tempo não prejudicou a temporada como um todo, devido à intensidade e o brilhantismo dos momentos individuais – de novo, à parte a já mencionada cena entre Jaime e Cersei. É uma estratégia diferente, mas adequada ao projeto de “Game of Thrones”, e que se torna mais uma característica especial desse projeto. Ora, nem só os grandes momentos, como as mortes de personagens marcantes ou cenas de ação, tiraram o folego do espectador nesta temporada. Um dos mais inesquecíveis momentos é o diálogo entre Tyrion e Jaime em “The Mountain and the Viper”.
Ambos conversam na masmorra escura sobre o primo Orson e sua mania de esmagar besouros por diversão. É um momento brilhantemente filmado e com atuações fantásticas de Dinklage e Coster-Waldau, e que por trás de uma conversa aparentemente banal, parece sintetizar a essência de “Game of Thrones”. Tyrion queria uma explicação para o fato de o seu primo ter a fixação em matar besouros e imagina os bichos sendo oprimidos por uma força maior, cruel e inescrutável (será que o primo Orson representa o autor George R. R. Martin?) Ele queria uma explicação para a crueldade da vida e para a confusão do mundo em que vive. Tyrion não consegue uma resposta, assim como nós, aqui no nosso mundinho. “Game of Thrones”, o seriado, também foi bastante cruel no seu quarto ano e chegou perto de ficar confuso e frágil em face de tantas histórias espalhadas. Mas de alguma forma conseguiu se manter, e esse é o feito mais incrível desta temporada.
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Ficha técnica

- Título original
- Game of Thrones
- Criação
- D. B. Weiss, David Benioff, George R. R. Martin, Bryan Cogman, Jane Espenson, Vanessa Taylor, Dave Hill
- Roteiro
- George R. R. Martin, David Benioff, D. B. Weiss, Bryan Cogman
- Elenco
- Sean Bean, Nikolaj Coster-Waldau, Peter Dinklage, Emilia Clarke, Lena Headey, Iain Glen
- Gênero
- Telessérie de ação, Série televisiva de fantasia
- Duração
- 1h 6min
- Temporadas
- 8
- Emissora
- HBO
- País
- Estados Unidos
Onde assistir
Curiosidades
- A temporada conclui a adaptação de "A Tormenta de Espadas", o terceiro livro da saga, iniciada na temporada anterior.
- Game of Thrones se tornou a série mais premiada da história do Emmy, com 59 vitórias ao longo das oito temporadas.
- Sophie Turner, a Sansa, contou que passou quase dois anos lavando pouco o cabelo para compor a aparência da personagem.
Fontes: Mix de Séries, Purebreak, Wikipédia (en)
