Arte Com Pipoca

Animosidade #1

Por Senna Ricarte4 min de leitura

Desenvolvedor e especialista em SEO, é o fundador do Arte Com Pipoca e um nerd consumidor compulsivo de informação e cultura. Atua na internet desde 2010.

Ficha da HQ

Capa de Animosity #1: uma menina com uma espingarda nas costas olha para trás ao lado de seu cão, cercados por animais de olhos brilhantes na penumbra
Divulgação/AfterShock Comics
Ficha da HQ
NomeAnimosidade
Nome OriginalAnimosity
RoteiroMarguerite Bennett
ArteRafael de Latorre
EditoraAfterShock Comics
PublicaçãoSérie regular
StatusTerminada
Edições28
Ano2016

Sinopse

Um dia, sem nenhuma explicação, os animais do mundo inteiro despertam: passam a pensar, a falar e, muitos deles, a se vingar dos humanos. Em Nova York, a menina Jesse descobre que Sandor, seu cão de estimação, também despertou, e que ele está disposto a tudo para protegê-la em meio ao caos.

A premissa de “Animosidade” cabe numa frase, e a própria HQ faz questão de dizê-la assim: um dia, sem razão alguma, os animais acordaram. Começaram a pensar, a falar e a se vingar. Lançada em 2016 pela AfterShock Comics, a série criada pela roteirista Marguerite Bennett, com arte de Rafael de Latorre, parte dessa ideia simples para construir uma estreia que mistura horror, humor negro e drama familiar, nem sempre em doses equilibradas.

Uma abertura que diz a que veio

A primeira cena se passa numa clínica veterinária em São Francisco, onde um exterminador de ratos conversa despreocupado com o veterinário sobre a hipocrisia de salvar alguns bichos e matar outros. Poucos quadros depois, os ratos respondem. Em duas páginas, a HQ estabelece o tom: a violência é explícita, e a pergunta moral por trás dela (o que os humanos fizeram com os animais?) não é sutil.

O ponto alto da edição vem logo em seguida, numa sequência de três páginas duplas com os mesmos doze quadros repetidos: um cachorro no veterinário, uma vaca diante de uma pistola, um urso-polar, uma orca num parque aquático, pandas num zoológico, galinhas, um hamster. A cada página, o mesmo instante avança alguns segundos, e o centro da composição exibe uma reação que vai de “Oh” a um palavrão, e depois a outro. É uma solução visual inteligente para mostrar um evento global sem precisar de um narrador, e é também onde o humor negro da série funciona melhor: parte das reações é absurda, parte é assustadora, e algumas são as duas coisas ao mesmo tempo.

O coração da história

O foco se fecha, então, em Nova York, na menina Jesse e em Sandor, seu cão de caça de orelhas compridas. É aí que “Animosidade” encontra o seu melhor argumento. Enquanto o mundo desaba em volta, o primeiro gesto de Sandor ao despertar é dizer que ama a menina, e toda a segunda metade da edição, com a fuga pelos telhados, o ataque dos pássaros e o confronto com uma tigresa, gira em torno da lealdade dele. A última página, com os dois abraçados diante de uma janela estilhaçada, é um fechamento emocional bem construído.

A arte de Rafael de Latorre sustenta essa virada de tom. Os animais são expressivos sem virar caricaturas, e o traço consegue passar do cômico ao aterrorizante sem mudar de estilo. As cores de Rob Schwager ajudam a separar os momentos, com tons quentes nas cenas de afeto e vermelhos saturados na violência.

Onde tropeça

Nem tudo funciona tão bem. Entre a abertura e a sequência dos doze quadros, há uma página inteira de texto, com uma citação do Gênesis e uma lista de estatísticas sobre a quantidade de animais no planeta. A ideia é boa, mas a execução interrompe o ritmo da leitura justamente quando a história começava a ganhar tração.

O humor também oscila. Algumas piadas acertam em cheio, mas outras, como parte das falas dos animais durante o caos, parecem estar ali mais pelo choque do que pela graça, e às vezes atropelam o peso das cenas. E a violência gráfica, com pessoas e animais feridos em close, vai afastar parte dos leitores, embora esteja coerente com a proposta.

Por fim, como toda primeira edição, esta é sobretudo uma apresentação. O mistério do “Despertar” fica sem nenhuma pista, e o objetivo da série, segundo a sinopse oficial, uma viagem de Jesse e Sandor de Nova York até São Francisco em busca da única pessoa capaz de protegê-la, ainda nem começou quando a edição termina.

Vale a leitura?

“Animosidade #1” é uma estreia forte, com uma premissa marcante, uma sequência visual memorável e uma relação entre uma menina e seu cão que dá ao leitor um motivo real para continuar. Tem problemas de ritmo e um humor que nem sempre acerta o tom, e não é leitura para quem se incomoda com violência explícita. Para quem gosta de histórias de sobrevivência com um pé no absurdo, é um começo promissor para uma série que teve 28 edições e ganhou dois títulos derivados.

Compartilhe:

Fontes: AfterShock Comics, Goodreads: série Animosity, Amazon: Animosity #1 (edição digital em inglês)

Leia também